Maria Antonieta Costa

Escritora

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DIÁRIO DE UMA ESCRITORA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Histórias reais

Havia semanas que o meu novo romance histórico não avançava. As personagens não se entendiam entre si, contradiziam-se a cada parágrafo e, pior ainda, já nem se entendiam comigo. Qualquer tentativa de as encaminhar para o rumo pretendido resultava em novas dúvidas, em mais investigação e páginas inteiras de notas sem utilidade aparente. Inspirada pelo célebre desafio de Julie Powell, que cozinhou mais de quinhentas receitas de Julia Child em trezentos e sessenta e cinco dias, desafiei-me a escrever um capítulo inteiro em apenas oito dias. Se Julie conseguira impor uma meta absurda à sua vida culinária, porque não aplicar o mesmo princípio à minha escrita? Estabeleci um prazo rígido, quase imprudente: oito dias para investigar os factos, levar as personagens teimosas a bom termo e concluir um capítulo decisivo. Pareceu-me uma excelente ideia... Agora, já não tenho tanta certeza.

Dia 1 — Quarta-feira, 1 de julho

Comecei o desafio. Levantei-me às sete da manhã, com a determinação de um navegador português prestes a descobrir um continente. Às oito já estava a investigar teses e manuscritos, às nove a tomar o meu terceiro chá de hortelã pimenta e às dez a olhar para a mesma frase há quarenta minutos, questionando todas as decisões que me levaram até ali. Ao final da tarde fui à aula de Jump Fitness para libertar o stresse. Voltei convencida de que tinha energia para conquistar o mundo. Mexe aqui, mexe ali... acabei por reorganizar uma estante inteira de livros sobre a História de Portugal, atividade que não fazia parte do plano.À meia-noite tinha escrito página e meia. Não era brilhante, mas era um começo. O Dudu, o meu Yorkshire terrier, observava tudo com ar crítico. Deitei-me às duas da manhã, porque uma personagem secundária decidiu ganhar importância sem autorização.

Dia 2 — Quinta-feira, 2 de julho

Acordei tarde. Durante a noite sonhei com uma ideia excelente para uma cena crucial. Mas o meu cérebro tem um costume irritante: ao acordar, esquece o detalhe dos sonhos e retém só uma leve ideia. Consegui lembrar-me apenas de que era qualquer coisa extraordinária. Passei a manhã a tentar recuperá-la. No final do almoço, desisti. Derivei para outra. Não era tão boa como a do sonho. Mas que remédio! À noite, recebi mensagens de amigos a perguntar como corria o desafio. Respondi com uma fotografia da minha secretária atulhada de livros e cópias, mas nenhum deles percebeu que aquilo era um pedido de socorro. O Dudu observava-me do sofá, com o ar de quem está convencido de que seria capaz de gerir o desafio melhor do que eu. 

Dia 3 — Sexta-feira, 3 de julho

Estava cheia de garra na minha luta quando, às dez e vinte, recebi uma chamada do administrador do condomínio: “Tem conhecimento de uma infiltração no apartamento de baixo?” – comunicou. Achei que era engano. Mas não era. A casa de banho das visitas, fechada há dias, porque ninguém visita escritores em fase de prazo, tinha conquistado estatuto arqueológico. Rodei a maçaneta. Fui recebida por um cenário digno de filme de catástrofe. Do autoclismo saía um esguicho monumental que atingia a parede oposta com a convicção de um canhão naval, na pior das hipóteses com a potência de uma fonte ornamental municipal. A água atravessava o aposento de uma ponta à outra. Durante alguns segundos fiquei simplesmente a olhar. A água também. Depois, começou a atingir-me os pés. Corri à procura da torneira de segurança. Escorreguei na havaiana, pernambucana de gema, deixei cair o telemóvel e consegui finalmente fechar a água por entre impropérios que não tenho o hábito de verbalizar. Parecia ter combatido uma barragem inteira.Seguiu-se a limpeza. Descobri zonas da casa de banho cuja existência desconhecia. O meu lóbulo criativo, que pela manhã entrara em modo de atualização automática, bloqueou nos 99%. As ideias organizaram um motim e só consegui pensar em chocolate e pão com manteiga. Não escrevi uma única linha neste dia.

Dia 4 — Sábado, 4 de julho

Dia dedicado às consequências da avaria. Voltei a limpar o chão. Com a empregada de férias, não há reforços. Descobri rapidamente que eliminar os vestígios de uma inundação não tem absolutamente nada em comum com os anúncios televisivos. Os anúncios mostram pessoas felizes. Eu parecia um náufrago. À tarde fui ao apartamento inferior visitar a vizinha. Inspecionámos os estragos. Fotografei o teto, na oblíqua e em qualquer ângulo imaginário que me parecesse mais eficaz. Acionei o seguro pela internet e comecei a suspeitar de que o verdadeiro objetivo das seguradoras é criar arquivos fotográficos e agravar o prémio, mesmo que o segurado não tenha feito uma única participação em vinte anos. Se tivesse vendido bilhetes para o espetáculo, teria recuperado parte do possível agravamento da prestação. Uma amiga telefonou a convidar-me para jantar. Lamentei não poder: estava ocupada a resolver problemas do século XVI. Houve um silêncio estranho do outro lado da linha. Paciência, perdi um pouco da minha credibilidade social. Escrevi duas páginas. Considerei uma vitória.

Dia 5 — Domingo, 5 de julho

Acordei determinada a recuperar o tempo perdido. Maldição! Desapareceu um dos meus apontamentos, crucial para o que se seguia. Encontrei-o duas horas depois, debaixo do sofá, a folha ligeiramente molhada, com uma mancha suspeita. Muito suspeita. A proximidade do incidente com o único habitante da casa que levanta a perna para fazer xixi levou-me a formular a teoria certa. Com a folha segura por dois dedos, olhei o Dudu bem de frente. Fixei-o inquisidoramente, à espera de um sinal de culpa, um sobressalto, uma fuga apressada ou um breve abalo de consciência. Nada. Não demonstrou, sequer, arrependimento. Bocejou, deu meia volta e afastou-se com a dignidade de quem considera o assunto encerrado. O caso permanece por resolver. Mas sei o que aconteceu. O ventinho que soprava pela janela fez a folha voar para o chão. Ele aproveitou e vingou-se de alguma ofensa imaginária (talvez da reduzida atenção de ontem): marcou-a com meia dúzia de gotas de urina. Safado! Passei a tarde a reescrever. Passei a noite a apagar. O saldo líquido foi praticamente nulo. Mesmo assim, o capítulo começou a ganhar forma.

Dia 6 — Segunda-feira, 6 de julho

Milagre! Escrevi durante horas. As personagens vergaram-se a comunicar sem intervenção policial. O dia correu surpreendentemente bem. Talvez porque não houve inundações. Nem telefonemas. Nem seguros. Nem yorkshires vingativos. Consegui escrever quase quatro páginas. Pela primeira vez senti que as personagens estavam vivas e esqueci-me completamente da hora de jantar.À meia-noite tinha ultrapassado metade do capítulo. Celebrei com uma torrada e um flute de champagne. A vida literária tem momentos de grande glamour.

Dia 7 — Terça-feira, 7 de julho

Dia de yoga. Por muito encravada que estivesse com infiltrações e crises literárias, faltar nunca seria uma opção. A casa podia inundar, o capítulo podia não avançar e o mundo podia desabar, mas estava fora de questão, porque o yoga continuava a ser um compromisso sagrado. O professor falou sobre equilíbrio interior. Passei toda a aula a pensar numa conspiração ocorrida há séculos, envolvendo uma figura portuguesa bastante conhecida. Voltei para casa inspirada. Escrevi sem parar durante horas. À noite, reli tudo e pareceu-me que talvez conseguisse terminar no prazo. O Dudu adormeceu em cima dos meus apontamentos. Interpretei isso como um voto de confiança.

Dia 8 — Quarta-feira, 8 de julho

Último dia. Acordei às seis da manhã. Meio litro de chá. Depois, outro. Água suficiente para alimentar uma pequena central elétrica. Concentrei-me. Às quatro da tarde faltavam duas páginas. Às seis faltava uma. Às sete e quarenta e três escrevi a última frase. Fiquei a olhar para o ecrã durante vários minutos. Sobrevivera a um autoclismo possuído, à Seguradora, a noites mal dormidas e a um yorkshire com tendências para a sabotagem, mas aquilo ainda não estava definitivo. Ao fim dos oito dias existia um esboço robusto, uma estrutura sobre a qual seria necessário corrigir, aprofundar e limar arestas.

BALANÇO

A experiência serviu para demonstrar uma diferença fundamental entre escrever e cozinhar. Uma receita, por mais complexa que seja, conduz normalmente a um resultado concreto e previsível: seguem-se os passos, respeitam-se as quantidades e, salvo algum desastre culinário, obtém-se o prato esperado. A escrita não funciona assim. Não existem medidas exatas para uma personagem, nem tempos de cozedura para um diálogo, nem garantias de que uma cena resultará apenas porque se seguiram determinadas orientações. Um capítulo pode ocupar semanas a amadurecer, resistir a todas as tentativas de o concluir e continuar a exigir alterações mesmo depois de aparentemente terminado. Julie Powell conseguiu reproduzir receitas; eu descobri que não é possível reproduzir inspiração. O prazo ajudou a vencer a inércia, obrigou-me a avançar e impediu-me de esperar eternamente pelo momento ideal. Mas também confirmou aquilo de que muitos escritores suspeitam: a escrita é uma arte menos parecida com a culinária do que com uma escavação arqueológica. Nunca sabemos exatamente o que vamos encontrar, quanto tempo demorará a aparecer ou se, quando julgamos ter chegado ao fim, não haverá ainda mais uma camada por descobrir.

© Maria Antonieta Costa, agosto, 2026

 

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