Maria Antonieta Costa

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MEMÓRIAS DE ... SANTA MARIA DE POMBEIRO

História

MEMÓRIAS DE ... SANTA MARIA DE POMBEIRO

No coração do vale de Ribavizela, em Felgueiras, ergue-se um dos mais importantes mosteiros medievais portugueses. À primeira vista, o Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro impressiona pela imponência da sua arquitetura. Durante séculos foi um verdadeiro centro de poder religioso, económico e cultural, cuja influência ultrapassava largamente as fronteiras da região.

Embora exista documentação que atesta a presença de uma comunidade monástica desde o ano de 853, foi a grande doação efetuada em 1102 por Dom Gomes (ou Egas) de Sousa e sua esposa, Dona Gontroda, que lançou as bases da instituição medieval que hoje conhecemos. Poucos anos mais tarde, em 1112, a condessa Dona Teresa concedeu ao mosteiro Carta de Couto, conferindo-lhe privilégios próprios, autonomia judicial e um estatuto excecional entre as instituições religiosas do nascente Condado Portucalense.

Junto do acesso ao claustro encontra-se um testemunho em pedra que recorda parte dessa história: um silhar epigrafado com a data de 1199. A inscrição refere o abade Dom Gonçalo e é geralmente interpretada como um marco da grande campanha construtiva românica, simbolizando o momento em que o mosteiro adquiriu a monumentalidade que ainda hoje conserva. Muitas vezes se pensa que essa pedra assinala a fundação ou a doação, mas, na realidade, trata-se de um testemunho posterior ligado à construção do edifício.

Desde o século XII, Pombeiro pertenceu à Ordem de São Bento. Os monges beneditinos seguiram a regra de ora et labora, conciliando a oração com o trabalho intelectual e agrícola. Beneficiando da proteção da poderosa família dos Sousões e das sucessivas dádivas régias e particulares, o cenóbio transformou-se num dos maiores potentados monásticos do Entre-Douro-e-Minho.

A riqueza acumulada era extraordinária. Pombeiro chegou a administrar trinta e sete igrejas, possuía extensas propriedades agrícolas, cobrava rendas e dízimos e exercia influência até à região de Vila Real. Situado no cruzamento de importantes vias medievais que ligavam o Porto a Trás-os-Montes e a Beira ao Minho, acolhia reis, nobres, peregrinos e viajantes, desempenhando um papel central na vida económica e espiritual do Norte do reino. 

No interior da igreja destaca-se o magnífico retábulo barroco da capela-mor, obra em que participou Frei José de Santo António Vilaça, célebre escultor beneditino do século XVIII. No seu centro encontra-se a venerada imagem de Santa Maria Maior, padroeira do mosteiro, que continua a dominar todo o espaço litúrgico desde há centenas de anos.  Apesar das profundas transformações barrocas do século XVIII, a escultura conserva uma serenidade de raiz medieval, sendo considerada por vários especialistas uma imagem de tradição gótica atribuída ao século XIV, posteriormente adaptada ao gosto dos séculos seguintes. No coro alto conserva-se o órgão tubular setecentista, construído durante a grande campanha barroca que remodelou o mosteiro ao longo do século XVIII e que dotou a igreja de alguns dos seus mais notáveis elementos artísticos.

A prosperidade de Pombeiro conheceu, contudo, momentos dramáticos. Em 1809, durante a segunda invasão francesa, as tropas do marechal Soult incendiaram o mosteiro. O fogo destruiu dependências conventuais e provocou perdas irreparáveis. A comunidade conseguiu sobreviver por algum tempo, mas a extinção das ordens religiosas, decretada em 1834, significou o abandono do cenóbio. Vendido a mais do que um proprietário, muitas pedras foram retiradas para construções particulares e grande parte do património dispersou-se.

A biblioteca monástica teve um destino diferente. Alexandre Herculano, nomeado por Dom Pedro IV como segundo bibliotecário da Real Biblioteca Pública do Porto, para lá terá recolhido o seu recheio, desempenhando um papel determinante na organização, inventariação e preservação desse património bibliográfico. Embora nem sempre seja possível identificar individualmente cada volume proveniente de Pombeiro, sabe-se que o espólio bibliográfico do mosteiro integrou esse vasto movimento de salvaguarda do património nacional. A mítica biblioteca está agora inserida num plano progressivo de valorização do monumento, aguardando uma intervenção estruturada de reabilitação museológica para devolver a dignidade ao espaço.

O mosteiro guarda igualmente a memória de uma das figuras maiores do camonismo. Na igreja encontra-se o túmulo de Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), natural de Pombeiro, o mais célebre comentador da obra de Luís de Camões. A sua monumental edição anotada de Os Lusíadas marcou profundamente os estudos camonianos e continua a ser uma referência incontornável para os investigadores.

Como acontece com muitos mosteiros medievais, também Pombeiro alimentou o imaginário popular. Conta a tradição que, em noites de nevoeiro, alguns habitantes ouviam o toque distante dos sinos do antigo mosteiro mesmo quando ninguém os fazia soar. Outros diziam ver monges caminhando silenciosamente pelos corredores do claustro, como se a comunidade beneditina nunca tivesse abandonado verdadeiramente aquele lugar. São lendas sem comprovação histórica, mas que revelam a profunda ligação da população ao monumento e a aura de mistério que sempre envolveu o espaço.

Hoje, integrado na Rota do Românico, o Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro continua a contar quase doze séculos de história. Cada pedra, cada capitel e cada inscrição recordam uma época em que os mosteiros eram muito mais do que lugares de oração: eram centros de poder, de cultura, de riqueza e de memória. Em Pombeiro, essa memória permanece viva, gravada na pedra desde 1199 e perpetuada pela devoção a Santa Maria Maior, pelas marcas do incêndio francês, pelo legado de Manuel de Faria e Sousa e pelo extraordinário património que ainda hoje sobrevive.

As imagens que ilustram este artigo foram fotografadas por mim e mostram: fachada principal, fachada sul, capela-mor e imagem de Santa Maria Maior, órgão tubular ainda ativo, guarda em talha do coro alto, cadeiral monástico sob a rosácea da fachada principal virada a poente, inscrição funerária e comemorativa medieval do mosteiro num silhar em granito, referindo-se ao descanso e à memória do seu fundador: transcrição e leitura reconstituída – ERA M CC XXX VII […] MAII HIC REQUIESCE[T] GUNDISALVUS QUI FUNDAV[IT…]; leitura em português moderno – «Era de 1237 [ano de 1199 d.C.] aos [..] de Maio aqui descansa Gonçalo que fundou». Todas as imagens em: https://www.facebook.com/mantonietacostaoficial/posts/pfbid024tZX8Gcb2sPeirtbYsf8JrwgDmP82E3JNkv58iQLBf1WRDpeW6mL6x9wmWayvtHLl?__cft__[0]=AZYDyjtbYycNubnThIC8BF1Gf5Slrz09BheaOd0QlqIP9aliWgIQmaA061tlRRA4MGcUW2LRb5vOgtdMXC1YuFnyvKnG_vUqj9ulw9NEwx3rQCojsR4z-1peMMcCsgahtgw5dGGYwL0UIYjjHw1QiNkH&__tn__=%2CO%2CP-R

© Maria Antonieta Costa, julho, 2026

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