Maria Antonieta Costa

Escritora

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A Ribeirinha, a última paixão de Sancho I

História

No meu livro ‘Dom Sancho I, o herdeiro do reino’, Maria Pais de Ribeira e Cabreira, uma das figuras protagonistas, fascinou-me desde o primeiro momento, não apenas pelo seu lugar junto do trono, mas pela forma como, sendo mulher num mundo dominado por homens, conseguiu marcar presença na memória da História. Sendo uma das barregãs régias mais célebres de Portugal, entre as muitas vozes esquecidas da Idade Média, a sua sobressai não apenas pelo escândalo ou pelo romance, mas pela influência real que exerceu num tempo em que as mulheres raramente deixavam rasto nos anais oficiais.

No livro, mergulho na sua vida explorando a relação amorosa que a uniu a um rei medieval e na forma como essa ligação a projetou para além do anonimato reservado à maioria das mulheres da época. Mais do que um romance de corte, a obra é um convite a repensar a forma como olhamos a História: não apenas como uma sucessão de batalhas e reinados, mas como um tecido complexo onde as vozes femininas, tantas vezes silenciadas, merecem também ser escutadas, compreendidas e valorizadas.

Dom Sancho parece ter assumido esta barregã a partir da parte final de vida da rainha. Maria Pais de Ribeira e Cabreira descendia de duas das mais antigas estirpes de Entre-Douro-E-Minho. Era filha de um valido muito chegado, Paio Moniz, que em 1199 se tornou alferes-mor de Dom Sancho. Seria cerca de dezasseis anos mais nova do que o amante. Os atributos físicos desta senhora foram perpetuados pelo ‘Livro Velho de Linhagens’ e por Paio Soares de Taveirós, o trovador que nela se inspirou ao compor a célebre ‘Cantiga da Ribeirinha’ ou ‘Cantiga da Garvaia’:

“No mundo non me sei pareiha,
Mentre me for como me vai,
Ca já moiro por vós – e ai!
Mia senhor branca e vermelha,
Queredes que vos retraia
Quando vos eu vi em saia!
Mau dia me levantei,
Que vos enton non vi fea!
E, mia senhor, dês aquel di’, ai!
Me foi a mim mui mal,
E vós, filha de don Paai
Moniz, e bem vos semelha
D’haver eu por vós guarvaia,
Pois, eu, mia senhor, d’alfaia
Nunca de vós houve nen hei
Valia d’ua Correa.”

O poema sugere uma mulher de pele clara e fulva cabeleira, uma beleza exótica, que apaixonou muitos dos que privavam com ela. Mais do que uma cantiga de amor cortês, as palavras sugerem um profundo envolvimento do compositor, embora não correspondido. Pobre poeta que assim se enfeitiçou por uma dama cujo olhar pousava na coroa régia. Enormes terão sido os amores que terá despertado e descomunal foi, por certo, a paixão que por ela nutria o rei, visível nas doações valiosas que lhe fez.

Outro indício da extraordinária sedução que exercia sobre o monarca é a teoria de que a pitonisa que impedia o bispo de Coimbra de frequentar o Paço Real, e que Inocêncio III refere na bula de 23 de fevereiro de 1212 como acompanhante diária do rei, mais não é do que esta bela concubina, uma feiticeira de mil encantos.

Desta mulher, a quem amou tanto, que lhe inspirou um lindo cantar de amigo e que o acompanhou durante os últimos doze anos de vida, teve Dom Sancho seis filhos. Mas a memória e a fama da Ribeirinha, o epiteto carinhoso pelo qual ficou conhecida e que sugere uma figura delgada e franzina, advém, sobretudo, do rapto de que foi protagonista quando se retirava de Coimbra para as suas terras de Vila do Conde, após o enterro do rei.

Foi seu autor Gomes Lourenço Viegas, trineto de Egas Moniz, outro que por ela nutria assolapada paixão, quando já não era jovem. O intrépido conseguiu tirá-la ao grupo, apesar da defesa do irmão que a acompanhava, e fugir com ela para Leão. Meteu-se Afonso II no acontecimento, escreveu carta ao rei leonês e para lá cavalgou Martim Pais Ribeiro para a resgatar. E tal foi possível, porque a bela, usando dos seus dotes de fascínio, prometeu ficar com o raptor se regressassem a Portugal.

Vieram até Castelo Rodrigo, ao encontro do monarca português, e logo ali a dama deu o dito por não dito, acabando o raptor sem vida. Veio, depois, a casar-se com um fidalgo galego, o viúvo João Peres de Lima, a quem chamavam ‘o Baticela’, e com ele teve três filhos.

A Ribeirinha teve vida longa. Faleceu cerca dos noventa anos de idade e foi sepultada no mosteiro de Grijó. Creio que é fácil imaginá-la na corte, a ruiva cabeleira descendo pela garvaia escarlate, arqueando as formosas formas do escultural corpinho ao som da lira e das trovas que lhe eram dirigidas, ou nas noites coimbrãs em que o luar batia nos terraços do Paço da Alcáçova, nos braços do amado rei, por entre os trinados dos rouxinóis, trocando juras de amor. Mulher inspiradora, a sua fogosa vida foi recriada no romance histórico ‘Dom Sancho I, o herdeiro do reino’.

Imagem - Maria Pais Ribeira (Wikipédia - Domínio Público)

© Maria Antonieta Costa

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