Ao longo da história europeia, e portuguesa em particular, existiram mulheres cuja importância social foi simultaneamente vital e desvalorizada: as curandeiras. Detentoras de saberes empíricos sobre a natureza, o corpo humano e a doença, estas mulheres foram, durante séculos, a primeira linha de cuidado em comunidades onde a medicina oficial era inexistente, inacessível ou ineficaz.
A presença de curandeiras remonta a períodos pré-cristãos, quando o conhecimento das ervas, dos ciclos naturais e do corpo feminino fazia parte de práticas comunitárias profundamente enraizadas. Nessas sociedades, muitas destas mulheres eram respeitadas como figuras de autoridade espiritual e terapêutica. Contudo, com a progressiva cristianização da Europa e, sobretudo, a partir da Baixa Idade Média, esse estatuto começou a ser questionado.
Entre os séculos XIV e XVII (período que coincide com o auge da chamada «caça às bruxas») assistiu-se a uma transformação decisiva: mulheres que antes eram vistas como curadoras passaram a ser suspeitas de feitiçaria. Essa mudança não foi apenas religiosa, mas também social e política. As curandeiras representavam um saber autónomo, transmitido oralmente e frequentemente fora do controlo das instituições, algo que, num contexto de afirmação da autoridade da Igreja e do Estado, se tornava incómodo.
Em Portugal, embora a perseguição não tenha atingido a escala de outros países europeus, o fenómeno existiu, sobretudo, no âmbito da Inquisição, que visava práticas consideradas supersticiosas, mágicas ou heréticas. Assim, as curandeiras passaram a habitar uma zona ambígua: procuradas pelo povo, mas vigiadas e, por vezes, punidas pelas autoridades.
O seu saber baseava-se em práticas, mezinhas e orações. Antes de mais, eram mulheres de conhecimento empírico, construído pela observação, pela experiência e pela transmissão intergeracional de mãe para filha, de mestra para aprendiz. Um dos pilares da sua prática era o uso de plantas medicinais. Conheciam propriedades de ervas para tratar febres, dores, infeções, problemas digestivos e até questões ginecológicas. Preparavam infusões, cataplasmas, unguentos e tisanas.
Algumas práticas incluíam: infusões de ervas calmantes ou digestivas, cataplasmas para inflamações e feridas, preparações para facilitar o parto ou aliviar dores menstruais, misturas destinadas a «quebrar o mau-olhado». Essas mezinhas não eram vistas como magia pelas próprias, mas como medicina natural, uma forma de intervenção num mundo onde o conhecimento científico formal ainda estava em desenvolvimento. As práticas raramente eram apenas físicas. Frequentemente incluíam elementos espirituais, como: orações específicas para curar doenças, benzeduras (rituais de proteção) e invocações religiosas, muitas vezes sincréticas (mistura de cristianismo com tradições populares).
Muitas curandeiras eram também parteiras. Assistiam partos, aconselhavam mulheres e detinham conhecimentos sobre fertilidade, contraceção e interrupção da gravidez, temas particularmente sensíveis. Tal domínio sobre o corpo feminino representava uma autonomia que contrariava as normas sociais e religiosas da época. Como resultado, essas mulheres tornaram-se alvo privilegiado de desconfiança. Também o cruzamento entre medicina e espiritualidade foi um dos fatores que contribuiu para a suspeita de feitiçaria. O que para o povo era cura, para as autoridades podia ser superstição, ou pior, pacto com forças malignas.
Assim, a transição simbólica da curandeira para a «bruxa» não aconteceu de forma súbita, mas foi construída ao longo de séculos. Durante a Inquisição, qualquer prática não controlada pela Igreja podia ser considerada suspeita. Bastava uma denúncia (tantas vezes motivada por inveja, conflitos pessoais ou medo) para desencadear um processo. As acusações mais comuns incluíam: prática de feitiçaria, invocação do demónio, uso de poderes sobrenaturais para causar o mal. Na realidade, muitas destas mulheres eram simplesmente figuras independentes, com conhecimento e influência nas suas comunidades. Os interrogatórios incluíam frequentemente tortura e as confissões eram obtidas sob coação. Algumas mulheres foram condenadas, outras penitenciadas e muitas viveram sob um estigma social duradouro. Em suma, de curandeira a feiticeira, à perseguição e à acusação, ia um trajeto curto, se bem que assaz pesado.
Em Portugal, há registos documentais de mulheres acusadas de feitiçaria ou práticas mágicas, muitas delas associadas a curas. Embora nem sempre seja possível distinguir claramente entre curandeira e feiticeira nos documentos inquisitoriais, alguns casos são conhecidos. Maria Barbuda (século XVI), figura documentada em processos inquisitoriais, conhecida por práticas de adivinhação e cura, foi acusada de feitiçaria e submetida a julgamento. Como muitas outras, acabou por sofrer sanções, embora nem sempre fatais. Para Brites de Almeida (associada ao imaginário popular como a lendária Padeira de Aljubarrota), a sua associação ao feminino forte e independente mostra como mulheres fora do padrão eram frequentemente envoltas em narrativas quase míticas, por vezes com contornos de violência e suspeita. No entanto, grande parte das mulheres perseguidas permanece sem nome na memória coletiva. Nos arquivos inquisitoriais portugueses encontram-se dezenas de casos de mulheres acusadas por: benzer, tirar o quebranto e fazer mezinhas, as quais raramente pertenciam às elites (eram camponesas, viúvas ou marginalizadas).
Como eram vistas pela sociedade, pela religião e pela monarquia? Essa relação era profundamente ambígua. Para as populações rurais, surgiam como essenciais, acessíveis, confiáveis e eficazes dentro dos limites do conhecimento da época. A Igreja via com suspeita qualquer prática fora da ortodoxia, tolerando-as enquanto não ameaçassem a doutrina, mas facilmente perseguidas quando ultrapassavam essa linha. A monarquia, embora alinhada com a Igreja, tinha uma postura pragmática. Não há registos abundantes de reis portugueses a recorrer oficialmente a curandeiras, mas sabe-se que, em toda a Europa, membros da nobreza recorriam discretamente a práticas populares quando a medicina falhava (e ainda hoje não é assim?). Aliás, a própria coexistência de médicos oficiais e curandeiras demonstra que a sociedade não via essas práticas como mutuamente exclusivas. Contudo, um paradoxo envolvia a sua existência: em muitas comunidades, a mesma mulher podia ser respeitada como curandeira e temida como bruxa. Algumas recusavam pagamento, reforçando a ideia de vocação e de mistério.
As curandeiras foram figuras centrais na história social portuguesa. Cuidaram, aliviaram, acompanharam nascimentos e mortes, deram resposta onde o saber oficial não chegava. No entanto, foram também vítimas de um processo de marginalização que as transformou, no imaginário coletivo, em figuras perigosas ou ridículas. Entre a sabedoria e a superstição, entre o respeito e o medo, estas mulheres foram empurradas para as margens da História. Recuperar a sua memória não é apenas um exercício científico, é também um gesto de justiça. Significa reconhecer que, antes da medicina institucionalizada, houve mãos femininas que sustentaram comunidades inteiras. E que, muitas vezes, pagaram caro por isso.
© Maria Antonieta Costa (2026, abril)
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