Maria Antonieta Costa

Escritora

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Sorrir na Desgraça: a Televisão e o Vazio Mental

Reflexão

Há um fenómeno fascinante que desafia séculos de filosofia, psicologia e bom senso: o riso de certas pessoas em contexto de calamidade numa transmissão televisiva. A pessoa está com água pelos joelhos, a casa ficou sem telhado, o carro foi levado pela enxurrada… e ali está ela, sorridente, quase a conter uma gargalhada, enquanto o repórter pergunta: “Como é que se sente neste momento?”

Como se sente? Evidentemente, ótima. Pois então! Quem não sorriria ao ver a própria vida resumida a trinta segundos de antena, com vento a bater no microfone e o logótipo do canal no canto do ecrã? É um privilégio. Uma experiência premium. A tragédia passa, mas a televisão… a televisão fica.

O mais intrigante é quando o sorriso surge no auge da queixa.
“Perdi tudo 😁… a casa, os móveis, as fotografias da família 😄… e agora não sei como vou fazer 😅.” “Viemos ajudar 😁... Está tudo destruído 😁”. Tudo isto com uma expressão que sugere que, a qualquer momento, alguém vai gritar “Corta!” e oferecer um café.

Talvez seja um mecanismo de defesa. O cérebro, sobrecarregado, decide: isto é demasiado mau para ser levado a sério, vamos rir. Ou talvez seja puro nervosismo, aquela risada automática que aparece quando não sabemos onde pôr as mãos, nem a dignidade. Mas há também outra hipótese, mais simples e mais portuguesa: a consciência súbita de que se está na televisão.

O governo, por pior que seja, é aceitável. Os políticos são todos brindados com um sorrisinho 😁, mesmo que se escarneça deles por trás. Porque estar na televisão transforma tudo. A desgraça ganha estatuto. A dor torna-se conteúdo. E o cidadão comum, apanhado de surpresa (ou não) pela câmara, sente que deve corresponder, ser simpático, colaborante, quase animado, até idiota. Não vá o país pensar que ele é maldisposto, mesmo com a casa em ruínas. 

No fundo, talvez não se riam da tragédia. Talvez se riam do absurdo da situação: sofrer, mas com boa iluminação; queixar-se, mas com audiência; perder tudo, mas com direito a close-up.

E assim seguimos, um país onde até a desgraça sorri para a câmara. Porque chorar é humano… mas rir, quando aparece um repórter, é praticamente irresistível.

Enfim... cérebros que confundem raciocínio e inteligência com tempo de antena.

© Maria Antonieta Costa, janeiro, 2026

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