Antes da invenção do relógio mecânico, a humanidade utilizava as horas temporais ou desiguais. O dia e a noite eram divididos em doze partes cada, o que significava que uma hora no verão era muito mais longa do que uma hora no inverno.
Desde a Antiguidade, e durante a Idade Média, existiram certas formas de contagem do tempo diário. Mecanismos de engrenagens complexas, movidos a água como o Motor Cósmico, construído na China, existiam desde o século XI. Os relógios de sol, mais comuns, eram chamados ‘relógios de missa’ ou ‘relógios riscados’. Em vez de utilizarem sistemas matemáticos complexos e orientações astronómicas precisas (como os modelos romanos antigos), estes aparelhos eram rudimentares e gravados diretamente numa pedra da parede sul das igrejas medievais. Consistiam num semicírculo riscado na pedra, com um pino central (gnómon) que projetava a sombra. O círculo não era dividido em vinte e quatro partes iguais, mas continha apenas algumas linhas marcantes orientadas para as principais horas canónicas (geralmente Terça, Sexta e Noa). A linha correspondente à Sexta (meio-dia) era quase sempre a mais longa e vertical, servindo como o ponto de ancoragem do dia.
Até ao século XIII, se perguntasse as horas, quem quer que fosse responderia que seria, por exemplo, Hora de Terça ou Hora de Completas, reportando-se às horas canónicas.
A expressão ‘hora canónica’ refere-se às divisões do tempo que os clérigos e monges utilizavam para organizar as suas orações diárias (o Ofício Divino). O costume de orar em momentos fixos do dia vem da tradição judaica, mas a formalização do termo e das regras institucionais da Igreja (através de cânones ou leis eclesiásticas) consolidou-se a partir do século V. A estrutura definitiva e rigorosa que regulou o clero foi amplamente fixada pela Regra de São Bento em 530 d.C.. O dia não era medido por números (‘duas horas’, ‘três horas', por exemplo), mas sim por nomes associados aos momentos de oração: Matinas (madrugada), Laudes (ao amanhecer), Prima (por volta das 6h da manhã), Terça (por volta das 9h da manhã), Sexta (ao meio-dia), Noa (por volta das 15h), Vésperas (ao pôr do sol) e Completas (antes de dormir).
A partir do século XIV, com os relógios mecânicos a baterem pancadas iguais nas torres das cidades, a população e o próprio clero começaram gradualmente a adotar o formato numérico moderno: são nove horas, são cinco horas.
Quando os primeiros relógios mecânicos surgiram no século XIV, os astrónomos simplesmente fixaram e uniformizaram o comprimento daqueles intervalos que a sombra dos pinos dos relógios de sol já repercutia diariamente nas paredes das igrejas.
Na Europa, a invenção do relógio mecânico remonta ao século XIII, quando foram desenvolvidos os primeiros mecanismos movidos a pesos. A primeira aparição histórica comprovada deu-se em 1309, em Milão, com a instalação de um relógio na torre do campanário da Basílica de Santo Eustórgio. Estes primeiros engenhos não tinham mostradores nem ponteiros, limitando-se a soar sinos para regular a rotina diária (como as horas de oração e os recolheres noturnos).
A tecnologia terá chegado a Portugal no último quartel do século XIV, em 1377, com a instalação de um exemplar pioneiro colocado numa das torres da Sé de Lisboa. Foi um esforço conjunto financiado pelo rei Dom Fernando I, pelo Cabido da Sé e pelos Homens Bons da cidade, o que demonstra que a medição do tempo já interessava tanto à Igreja como ao comércio. Foi obra de um artesão estrangeiro conhecido nos registos como Mestre João Francês, sublinhando que a tecnologia foi importada diretamente do centro da Europa. Tal como os restantes relógios europeus da época, não tinha mostrador. O mecanismo servia estritamente para bater sinos, regulando o recolher obrigatório e a abertura/fecho das portas dos bairros (como a Judiaria e a Mouraria).
Logo após este primeiro passo, a introdução destes aparelhos ganhou forte impulso com o casamento do rei Dom João I com Dona Filipa de Lencastre, em 1387. A rainha trouxe consigo uma forte ligação cultural e científica ao Norte da Europa, fazendo com que a relojoaria grossa se espalhasse por Portugal.
Infelizmente, tal relógio não resistiu ao tempo. Para quem quiser ver um exemplar físico real daquela era, o mecanismo original mais antigo que ainda sobrevive em Portugal encontra-se no Mosteiro da Batalha, datado do século XV. Encomendado por Dom Afonso V e construído entre 1460 e 1471 pelo mestre relojoeiro João Rodrigues Alemão, o instrumento está associado à torre sineira (Torre da Cegonha).
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