Este ano assinalam-se os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, o maior poeta da língua portuguesa. A data não é certa (pensa-se que tenha nascido em 1525), mas o simbolismo é inegável.
500 anos depois, porque é que ninguém se atreve a cancelá-lo?
Num tempo marcado por revisões históricas, discursos disruptivos e uma crítica cada vez mais feroz ao passado (muitas vezes movida por impulsos ideológicos pouco informados), é surpreendente que Camões permaneça, até agora, incólume. Em plena era das redes sociais, das polémicas rápidas e das reavaliações constantes do passado sem critério, é curioso (e até um pouco surpreendente) que ninguém tenha ainda tentado "cancelar" Camões.
Sim, estamos a falar do autor de Os Lusíadas, o poema épico que celebra as glórias da expansão portuguesa, tema que, hoje em dia, costuma levantar poeira. E, no entanto, Camões permanece intocável. Ou melhor: continua a ser lido, estudado e admirado. Porquê?
Uma vida que é já de si uma crítica
Talvez porque a sua vida, tão errante quanto apaixonada, tão trágica quanto heroica, seja, por si só, uma redenção. E talvez porque a sua obra, profundamente crítica e reflexiva, vá muito além do panegírico ao Império, contendo em si a amargura do desencanto e a lucidez de quem viu o melhor e o pior da condição humana.
Camões não precisou que o julgassem com olhos de hoje: o próprio foi implacável consigo e com o mundo à sua volta. Viveu fora da norma, amou sem convenções, enfrentou o poder, escreveu em condições precárias e morreu praticamente esquecido. Não se protegeu com privilégios. Foi, ele mesmo, vítima das contradições da sociedade em que viveu. Por isso, é difícil encaixá-lo em discursos simplistas. Não foi apenas o poeta dos reis: foi também o poeta dos desterrados. E essa ambivalência, essa profundidade humana, talvez o salvem de ser derrubado do pedestal.
A obra que sobrevive a séculos
É fácil colar em Camões o rótulo de "Poeta do Império", mas isso é só parte da história. Em Os Lusíadas celebra-se a viagem de Vasco da Gama à Índia. Mas há muito mais do que isso. Camões escreve também sobre o medo, a dúvida, a saudade, a injustiça.
A famosa figura do Velho do Restelo, que critica a vaidade das conquistas, remete-nos para uma antecipação do descontentamento moderno. E o Adamastor, o monstro simbólico dos perigos do desconhecido, parece avisar-nos: “Cuidado com os sonhos de grandeza”.
Ou seja: Camões não foi apenas o cantor do império, mas também o seu crítico. E talvez seja essa consciência, essa capacidade de ver o outro lado das coisas, que o mantém atual.
Os Lusíadas não é apenas um poema épico: é um espelho de uma época, um repositório de saber clássico e humanista e um testamento poético de um homem que viveu entre ruínas e esperanças. Camões também escreveu uma vasta produção lírica (sonetos, éclogas, elegias) que revela uma sensibilidade profunda, uma visão trágica do amor e da existência e uma mestria formal que o colocam ao nível dos grandes poetas do Renascimento europeu.
Um livro recente para um velho poeta
Publicado em 2013, o meu romance histórico A Epopeia do Eterno Navegador – A vida errante e apaixonada de Luís de Camões recupera esse lado profundamente humano do poeta. O título já diz muito. O livro respeita os dados históricos mais consensuais, mas dá-lhes vida. Mostra-nos Camões como figura real: apaixonado, indignado, perdido, resistente. Um homem que pensava e sentia profundamente e que, acima de tudo, escrevia com uma lucidez que continua a atravessar séculos.
Com rigor biográfico e uma abordagem literária envolvente, a obra recria a existência turbulenta de Camões: soldado, amante, andarilho, preso, exilado e sempre, acima de tudo, poeta. É um tributo que não idealiza, mas compreende. Um olhar contemporâneo sobre uma figura que viveu e escreveu para além do seu tempo.
Camões hoje
No mundo atual, em que tantos monumentos e figuras históricas são julgados por padrões contemporâneos, é notável que Camões resista como figura venerada e estudada, e não “cancelada”. Não porque seja imune a críticas, mas porque soube antecipá-las. Ele não glorificou cegamente: problematizou. Não celebrou apenas: questionou. E talvez seja essa capacidade crítica que o mantém relevante.
Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Camões não escreveu para agradar ao poder. A sua visão do mundo é ambígua, carregada de dúvidas, marcada pela distância entre o ideal e o real. É talvez essa honestidade profunda, essa consciência da falibilidade humana que o torna tão atual e tão difícil de atacar com os argumentos apressados e injustificados das polémicas contemporâneas.
Neste tempo de discursos e julgamentos simplificados, Camões lembra-nos que a verdadeira grandeza talvez esteja em ver e dizer as coisas como elas são. Sem fingimentos, sem politicamente corretos. Com verdade.
Mais do que um símbolo nacional, Camões é um símbolo da complexidade da nossa herança cultural. E em tempos de radicalismos simplificadores, isso é o mais valioso a conservar.
Imagem - Camões lendo ‘Os Lusíadas’, pintura a óleo de António Carneiro (1927 - Wikipedia, Domínio Público).
© Maria Antonieta Costa, agosto, 2025
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