Este não é um texto sobre o que se vê no folheto turístico, mas sobre o que se pode ver com os próprios olhos quando percorremos o Mosteiro de Santo André de Ancede: as ruínas, os silêncios, as portas fechadas e as marcas de um passado que sobreviveu ao tempo, embora fragmentado.
O Mosteiro de Santo André de Ancede situa-se na freguesia de Ancede e Ribadouro, no concelho de Baião, distrito do Porto, numa encosta sobranceira ao vale do Douro. A sua localização proporciona amplas vistas sobre a paisagem duriense, enquadrando o conjunto monástico num cenário de beleza natural.
A visita começou com uma expectativa talvez injusta. Sabia que o complexo tinha sido objeto de um importante projeto de recuperação conduzido pelos arquitetos Álvaro Siza Vieira e Daniel Vale, após a aquisição do conjunto pela Câmara Municipal de Baião e décadas de degradação. A intervenção permitiu devolver vida a parte do antigo mosteiro, convertendo-a em espaço cultural. Contudo, aquilo que mais me interessava não era a arquitetura contemporânea nem os espaços recuperados. Era o mosteiro antigo. As pedras antigas. As marcas do tempo. E foi isso que encontrei, mas só em parte.
Santo André de Ancede possui uma história longa e complexa. Embora se desconheça a data exata da sua fundação, sabe-se que em 1120 pertencia à Diocese do Porto e estava ligado aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Em 1141 recebeu de Dom Afonso Henriques a Carta de Couto (exposta no mosteiro) e, séculos mais tarde, foi anexado ao Convento de São Domingos de Lisboa por determinação do Papa Pio IV. Ao longo dos séculos XVII e XVIII conheceu uma fase de prosperidade que deixou marcas visíveis no conjunto arquitetónico, nomeadamente na célebre Capela do Senhor do Bom Despacho, de planta octogonal, e nos edifícios agrícolas que apoiavam a vida monástica.
Mas a História nem sempre é generosa com os seus monumentos. Após a extinção das ordens religiosas, o mosteiro passou para mãos privadas, conheceu utilizações diversas e entrou num lento processo de decadência. Muitas das dependências monásticas acabaram por desaparecer ou arruinar-se.
Talvez por isso o visitante tenha hoje uma sensação curiosa ao percorrer o espaço: o mosteiro existe, mas também não existe. Há paredes que contam histórias e outras que apenas sugerem aquilo que foram. Há ruínas que falam mais alto do que muitos edifícios intactos.
Durante a visita, a igreja permaneceu fechada. Pertencendo à Diocese, não se encontrava acessível ao público naquele momento. A situação repetiu-se com a Capela do Bom Despacho, cuja visita depende normalmente de marcação para visita guiada. Assim, o visitante sem tal plano fica, inevitavelmente, do lado de fora, imaginando tesouros artísticos e religiosos que sabe estarem ali, mas que permanecem escondidos atrás de portas encerradas.
Há uma certa ironia nesta situação. Passamos séculos a preservar património para que as gerações futuras o possam conhecer e, quando finalmente chegamos ao local, encontramos uma fechadura. Naturalmente existem razões práticas, de conservação e de gestão dos espaços. Ainda assim, fica a sensação de que a experiência poderia ser mais completa se os espaços fossem mais facilmente acessíveis.
Apesar disso, a visita valeu a pena pelas ruínas que resistiram, por permitir imaginar a vida quotidiana de uma comunidade religiosa que ali viveu durante séculos, muito antes de o automóvel, a eletricidade ou sequer a própria ideia de turismo existirem.
Há monumentos que impressionam pela grandiosidade. O Mosteiro de Santo André de Ancede impressiona, sobretudo, pela persistência. Sobreviveu a mudanças religiosas, a transformações políticas, à extinção das ordens, ao abandono, à passagem inexorável do tempo e chega até nós incompleto, fragmentado, com zonas só acessíveis com reserva prévia, mediante pagamento extra, o que limita o conhecimento.
© Maria Antonieta Costa, junho, 2026
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