Em Vilar do Infinito tudo parecia comum à primeira vista. Casas de pedra, ruas de paralelepípedo, um sino que tocava ao meio-dia e moradores que viviam no ritmo do tempo, sem pressa. Mas havia um segredo que pairava no ar, algo que ninguém ousava comentar abertamente: um homem vivia ali sem sombra.
Chamava-se Augusto, um forasteiro que chegara à cidade há pouco mais de cinco anos. Trabalhava como relojoeiro, consertando relógios diversos e de todos os tamanhos, fabricando modelos únicos que pareciam desafiadores para a época. Era educado, discreto e nunca causava problemas. Mas a ausência de sombra era um mistério que provocava cochichos silenciosos e olhares furtivos.
Augusto sabia que a sua peculiaridade despertava bisbilhotice, mas parecia conviver bem com isso. Alguns diziam que havia vendido a sombra ao diabo em troca de algum desejo oculto. Outros acreditavam que era fruto de uma experiência científica que dera errado. Mas ninguém sabia ao certo. E Augusto nunca falara sobre o assunto.
Certo dia, Matilde, uma jovem professora recém-chegada, resolveu confrontá-lo. Movida por uma curiosidade insaciável, acreditava que todo o mistério tinha uma explicação lógica. Entrou na loja decidida:
- Senhor Augusto, posso fazer-lhe uma pergunta?
- Claro, professora – respondeu, sem levantar os olhos da máquina que desmontava.
- Disseram-me que não tem sombra. É verdade? O relojoeiro parou o que fazia, fixou-a por um longo momento e sorriu levemente.
- Afirmativo. E antes que queira saber porquê, digo-lhe que foi porque um dia escolhi viver sem ela.
A resposta, enigmática, despertou ainda mais a curiosidade de Matilde:
- Como assim, escolheu?! Isso não é coisa que se possa decidir.
Ele suspirou, como quem carregava um peso invisível, e apontou para uma poltrona:
- Sente-se, professora. Vou contar-lhe uma história.
Começou a narrar uma experiência que parecia impossível. Há muitos anos, tinha conhecido um homem estranho numa estação de comboios. Esse homem fez-lhe uma oferta que parecia inofensiva: a oportunidade de se livrar da sua sombra.
- Disse-me: “Não percebe que é um fardo? Segue-o para onde quer que vá, reflete todas as suas ações, o mais ínfimo movimento e denuncia cada gesto. Sem ela, será livre." Fiquei tão intrigado que aceitei. Naquele momento, o homem apertou-me a mão e a sombra desapareceu como fumo ao vento. No início, senti-me leve, como se me tivesse libertado de um cadeado que nunca soubera que me oprimia. Mas, com o passar dos anos, percebi que viver sem sombra tem um preço.
- A sério! Tudo o que me conta aconteceu mesmo? – questionou a professora, abismada.
- É a mais pura verdade. Sem sombra, não há reflexo das minhas ações, nada que denuncie quem realmente sou.
Matilde franziu a testa, tentando entender:
- Quer dizer que... que perdeu a conexão com a sua essência...
- Não exatamente. Mas sem sombra, não há eco. Não há contraste. Você começa a questionar se o que faz tem realmente consequências.
Matilde ficou inquieta:
- Está arrependido?
O relojoeiro não respondeu de imediato. Caminhou até à janela, observando o movimento da rua, talvez a sombra dos transeuntes.
- Às vezes, sim. Às vezes, não. Ganhei a liberdade de ser alguém sem rótulos, mas perdi a capacidade de ver a mim mesmo por completo. Sem sombra, é como se não tivesse espelho.
A professora ficou em silêncio. O pensamento fervilhava com a complexidade e inverosimilhança da história. Por um lado, Augusto parecia ter conquistado algo que muitos desejam: a liberdade de viver sem a constante lembrança de falhas e imperfeições. Por outro, havia perdido a âncora que o ligava à nossa humanidade: o reflexo das consequências dos seus atos.
Matilde saiu da loja com mais perguntas do que respostas. Perguntou-se se ela mesma desejaria viver sem sombra. Viver sem carregar o peso de julgamentos, mas também sem a clareza que o contraste entre luz e a escuridão proporciona. Naquela noite, enquanto olhava para a sua sombra projetada na parede pelo abajur, interrogou-se se a nossa sombra é apenas uma projeção física. Ou se será antes parte essencial de quem somos, lembrando-nos que somos tão feitos de luz quanto de escuridão.
A história de Augusto espalhou-se por Vilar do Infinito, mas ninguém conseguiu decifrá-la completamente. Para uns, o relojoeiro era um homem amaldiçoado. Para outros, um privilegiado.
Mas para todos nós Augusto deixa a mesma pergunta:
- Abriria mão da sua sombra para se libertar do peso das consequências? Ou continuaria a carregá-la, sabendo que é a prova viva da sua humanidade?
Seguimos juntos nesta jornada.
Até à próxima reflexão.
© Maria Antonieta Costa
Imagem interior - Foto de Ryoji Iwata na Unsplash
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