Dois desconhecidos acabam por partilhar o mesmo banco num fim de tarde dourado.
À primeira vista, nada neles parece convergir: ele, um homem que carrega o peso do tempo nos ombros, cabelo grisalho e mãos que repousam imóveis sobre a bengala; ela, uma jovem vestida com um casaco colorido, segura um caderno gasto, o olhar perdido entre as páginas em branco e a promessa das palavras que ainda não existem.
Ambos hesitam antes de se pousarem sobre a madeira gasta do banco, como se algo invisível os puxasse para ali, como se um pacto silencioso os impusesse à mesma geografia.
Enquanto o tempo escorre devagar, quase parado, o ruído da cidade transforma-se num murmúrio distante. E a sombra das árvores alonga-se como uma linha entre o antes e o depois.
Não falam durante largos minutos. Mas há um diálogo mudo que percorre o ar entre ambos: o diálogo entre passados que nunca se cruzaram, entre destinos que nunca se tocaram. O homem reflete sobre os anos que o moldaram, as decisões que o endureceram e os nomes que deixou pelo caminho. A jovem sente-se dividida entre o impulso criador e o medo da própria voz.
Por que razão teriam parado ali, entre todos os recantos que a cidade oferece? Porquê naquele momento, naquele dia, naquele exato banco, naquele pedaço do mundo?
Ele saiu de casa para espairecer a mente e descansar as pernas: “Costumo parar aqui quase todos os dias,” diz, como quem precisa de preencher o silêncio. Ela aproveitou o fim da aula para terminar um poema antes do anoitecer: “É a primeira vez que aqui venho,” responde, sorrindo.
O homem foi professor e viu gerações passarem pelos bancos da escola, sempre com esperança no futuro. A jovem estuda Literatura e alimenta o sonho de publicar, um dia, os seus próprios versos.
A conversa prossegue e, pouco a pouco, partilham os seus percursos de vida. Falam da infância e das ausências. Daquilo que perderam e daquilo que nunca ousaram procurar. Falam com a calma própria dos que sabem que o tempo que terão ali é pouco, mas que o que disserem pode durar para sempre.
Descobrem que, apesar da diferença de idades e da evidente distância entre mundos, partilham o gosto pelas palavras e o prazer simples de escutar o vento que atravessa as folhas das árvores. Falam sobre os tempos em que ele era jovem e sobre os desafios que ela enfrenta agora para viver daquilo que ama.
E então, num instante quase impercetível, a verdadeira razão que os uniu revela-se apenas como uma evidência simples e impossível de ignorar. Ambos têm no bolso o mesmo envelope amarrotado, fechado há muito, com a mesma caligrafia e o mesmo selo de correio que já ninguém usa. Encontraram-no por acaso, entre os pertences esquecidos dos antepassados, e foram guiados por um instinto inexplicável até àquele banco, àquela hora, como que obedecendo a um chamamento que atravessa o próprio tempo.
Descobrem que as famílias estiveram entrelaçadas num segredo há muito enterrado: uma promessa nunca cumprida, uma carta nunca entregue, um encontro que nunca aconteceu. E por isso estão ali, como que cumprindo um pacto invisível que agora lhes dá a peça que faltava para compreender a própria história.
Ao fim da conversa, quando cada um segue o seu caminho, a verdadeira pergunta que este encontro nos deixa não é apenas o que faz com que duas pessoas se sentem no mesmo banco, mas antes o que as faz reconhecerem-se num espaço e num tempo que parecia apenas coincidência.
Quantos acasos da nossa própria vida terão sido, afinal, o eco distante de outras vozes que nunca chegámos a ouvir?
Quantos encontros inesperados esperam por nós num dia aparentemente igual a todos os outros?
Seguimos juntos nesta jornada.
Até à próxima reflexão.
© Maria Antonieta Costa
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