Em 1498 nasceu em Lovaina, Leonor de Habsburgo, filha primogénita de Filipe, “o Belo”, rei dos Países Baixos e depois de Castela, e de Joana “a Louca”, rainha de Castela e de Aragão. Esta princesa, irmã mais velha de Carlos I de Espanha e imperador do sacro império romano-germânico com o nome de Carlos V, foi criada na Flandres, ali tendo vivido até aos 19 anos.
Sendo rei de Portugal, Dom Manuel I projetara unir pelo matrimónio os dois filhos mais velhos com a casa Habsburgo. Como senhor de um império, podia aspirar a tais alianças. Por isso, negociou o casamento do príncipe herdeiro, Dom João, com Leonor, e o de sua irmã, Isabel, com o próprio Carlos.
Mas o destino deste monarca contrariara já os normais desígnios da Coroa portuguesa. Primeiro, porque não estava destinado a ser rei, mas foi: era filho do irmão de Dom João II, portanto, segundo primo do príncipe Dom Afonso, o herdeiro do trono. Mas este príncipe morreu antes do pai, deixando o trono sem sucessores, pelo que Dom João II determinou que o seu sucessor fosse o primo Dom Manuel.
Ora, quando Dom Afonso faleceu, em virtude de uma queda do cavalo em Alfange (Santarém), estava já casado com a filha mais velha dos Reis Católico, Isabel de Aragão, cujo compromisso fora firmado ainda ambos eram crianças.
Assim, ficando Isabel viúva por desaparecimento do herdeiro, Dom Manuel casou-se com ela. Mas a jovem rainha morreu no primeiro parto, sendo que o filho a seguiria na morte aos vinte e três meses.
Dom Manuel, viúvo e sem descendência, concertou o seu casamento com uma irmã da falecida esposa: Maria de Aragão. Casou-se com a cunhada em 30 de agosto de 1500 e tiveram dez filhos, até que ela faleceu em 1517, aos 35 anos, de causas naturais, quiçá exaurida de tanto parir durante os dezassete anos da união.
Mas o destino singular deste monarca, tanto em matéria de riqueza e poderio, como em matéria de relações matrimoniais, ainda tinha algo de extraordinário a ditar. Com 48 anos, el-rei sentiu-se com vigor bastante para assumir outra esposa.
E é então que surge a grande reviravolta. Dom Manuel I dá o dito por não dito e rouba ao filho a sua bela e fresca noiva de 20 anos de idade. Casa-se com Leonor de Áustria em 1518. E não perdeu tempo, porque em fevereiro de 1520 nasceu o primeiro rebento deste casal improvável: Dom Carlos, que faleceu no ano seguinte.
1521 traria a esta família uma benesse e uma desgraça: em junho nasceu Maria, a princesa que viria a ser uma das mulheres mais cultas e mais ricas da Europa ao herdar todos os bens de sua mãe; em dezembro, faleceu Dom Manuel I.
Como ficou Dom João?
A nossa curiosidade centra-se no que terá pensado e sentido o futuro Dom João III quando o pai lhe roubou a prometida, por quem se diz que estava deveras apaixonado. Como se sentiu quando teve de chamar mãe a quem era sua noiva?
Pois bem, talvez tentando suportar a atitude régia com uma justificação plausível, interpretou-se que Dom Manuel I tentava tornar-se rei de toda a Península Ibérica. Os mais cáusticos dirão que el-rei não resistiu a desposar uma beleza jovem que, ainda por cima, poderia proporcionar-lhe unir ambos os reinos peninsulares. Talvez tenha juntado o útil ao agradável.
Quando se soube da novidade, o conflito estalou entre pai e filho. Devido ao mal-estar, Dom Manuel começou a preferir o filho segundo, o infante Dom Luís. Por fim, as ditas razões de Estado e o banimento da corte dos que atiçavam o herdeiro contra o pai lograram apaziguar os ânimos. O monarca e o príncipe foram receber a noiva ao Crato.
Para as cerimónias e festas Dom Manuel e a corte vestiram-se à flamenga, como homenagem, mas apenas o herdeiro se apresentou em trajes portugueses.
E Dona Leonor?
Ter-lhe-ão falado o pior possível do príncipe herdeiro para a convencerem a aceitar o pai. Frei Luís de Sousa conta que ouviu a uma das damas da rainha o seguinte: “A boa senhora, vendo o príncipe, como espantada do que lhe tinham dito e do que via por seus olhos, dizia para as damas com ironia e ao parecer não sem mágoa: Este es el bovo?” [É este o que disseram ser idiota?].
O casamento durou apenas três anos. Nos últimos dias de vida do esposo Dona Leonor manteve-se na câmara do moribundo, como competia a uma rainha com sentimentos.
Passadas as cerimónias fúnebres e as da coroação do novo monarca, Dom João III foi visitá-la. Depois, foi levada para o mosteiro da Madre de Deus e mais tarde transferida para Santos-o-Velho.
Quando o rei saiu de Lisboa para fugir da peste, em Janeiro de 1523, Leonor acompanhou-o ao Barreiro e depois a Almeirim. Entretanto, Carlos V requereu o regresso da irmã a Castela, queria casá-la com o rei de França. Mas Dom João III, opondo-se a que levasse a filha com ela, impediu a saída. Talvez ambos pensassem ser ainda possível ficarem juntos. De facto, o rei era aconselhado pelo duque de Bragança e pela câmara de Lisboa a não deixar sair nem a rainha viúva, nem a infanta, e a desposar a primeira. Não se devolveria o avultado dote de Leonor, nem se deixaria que a grande fortuna a que Dona Maria tinha direito ficasse sob tutela de mãos estrangeiras.
Seriam más línguas?
Em Fevereiro de 1523, o embaixador inglês em Castela, escrevia a Henrique VIII que «the king of Portugal is in great love with her» [o rei de Portugal está muito apaixonado por ela] e um diplomata eslavo fazia eco do boato de que a rainha viúva estaria grávida do enteado. Em março, um outro diplomata considerava altamente improvável a ida da viúva de Dom Manuel para junto do irmão. Em abril e em maio de 1524, Dom João III voltou a insistir nas negociações matrimoniais com Castela, explicando aos embaixadores que não fossem claros acerca de qual das irmãs do imperador desejava para se casar. Em julho, assinou-se finalmente um contrato, mas com Catarina, a irmã mais nova de Carlos V e de Leonor.
Tendo deixado Portugal com ideias de voltar como esposa de Dom João III, a verdade é que Dona Leonor não mais regressaria, deixando cá a infanta Dona Maria, e casando-se com o viúvo francês Francisco I, com quem consta que foi bastante infeliz.
© Maria Antonieta Costa
Imagens – Manuel I de Portugal, iluminura do frontispício do “Livro 1 de Além Douro” da Leitura Nova, escrito entre 15??-1521; Leonor de Áustria, retrato por Joos van Cleve (wikipedia – Domínio Público).
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