Maria Antonieta Costa

Escritora

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PÁSCOA: ENTRE A HISTÓRIA, A FÉ E A CULTURA

Educação e Conhecimento

Um olhar científico e cultural sobre a celebração da Páscoa no mundo

A Páscoa é, em muitas partes do mundo, sinónimo de celebração, reflexão e renovação. Apesar de ser amplamente conhecida no contexto cristão como a festa da ressurreição de Jesus Cristo, as suas raízes mergulham em tradições religiosas mais antigas, especialmente na tradição judaica. Ao longo do tempo, diferentes culturas e confissões religiosas atribuíram-lhe significados específicos, mantendo, porém, um fio condutor comum: o da libertação, da passagem e da renovação da vida.

A origem do termo

O termo ‘Páscoa’ provém do hebraico Pessach (פֶּסַח), que significa ‘passagem’. Este vocábulo remete diretamente à narrativa bíblica do Êxodo, em que o povo hebreu, liderado por Moisés, foi libertado da escravidão no Egito. A ‘passagem’ do anjo da morte sobre as casas dos hebreus – poupadas por estarem marcadas com o sangue do cordeiro – é o centro simbólico da festa judaica. No grego, o termo foi transcrito como Pascha (Πάσχα), sendo adotado no latim e, por consequência, nas línguas europeias. Curiosamente, em inglês e alemão o nome da festa cristã segue outro caminho etimológico: Easter e Ostern têm possíveis ligações com deuses pagãos da fertilidade, como a deusa Eostre, celebrada na primavera.

A Páscoa Judaica – Pessach

Celebrada durante sete ou oito dias (dependendo da tradição), Pessach é uma das festas mais importantes do calendário judaico. Começa no dia 15 do mês de Nissan (geralmente em março ou abril) e comemora a libertação dos hebreus do cativeiro no Egito. A celebração é marcada por um jantar ritual – o Sêder de Pessach – onde se lê a Hagadá, se consomem alimentos simbólicos (como o pão ázimo e ervas amargas) e se transmite, oralmente, a história da libertação. O Pessach não é apenas uma recordação histórica, mas também um momento de ensino intergeracional, reforçando a identidade coletiva do povo judeu.

A Páscoa Cristã – Ressurreição e renovação

Para os cristãos, a Páscoa celebra a ressurreição de Jesus Cristo ocorrida no terceiro dia após a sua crucificação. Este é o momento central da fé cristã, pois representa a vitória sobre a morte e a promessa de vida eterna. A celebração cristã tem uma conexão direta com o Pessach, tanto cronológica como simbólica, pois, segundo os evangelhos, a crucificação ocorreu durante o período pascal judaico. A Igreja Católica Romana segue o cálculo estabelecido no Concílio de Niceia (325 d.C.): a Páscoa é celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera (no hemisfério norte), o que faz com que a data varie entre 22 de março e 25 de abril.

A Páscoa Ortodoxa

Os cristãos ortodoxos também celebram a ressurreição de Cristo, mas a data da Páscoa ortodoxa costuma diferir da católica, pois é calculada com base no calendário juliano (em vez do gregoriano). Além disso, os ortodoxos mantêm a exigência de que a Páscoa deve ocorrer após o Pessach judaico, como forma de preservar a cronologia bíblica. A liturgia ortodoxa da Páscoa é particularmente rica em simbolismo e emoção, culminando na vigília pascal, com cânticos, procissões noturnas e a proclamação: “Cristo ressuscitou! Verdadeiramente ressuscitou!”

Outras tradições pascais

Apesar de o termo ‘Páscoa’ estar fortemente ligado às religiões abraâmicas, outras culturas também celebram ritos de renascimento e passagem, sobretudo associados à chegada da primavera. No Irão e em comunidades zoroastrianas, o Nowruz (Ano Novo persa), celebrado no equinócio da primavera, simboliza a renovação da vida e é acompanhado por rituais de purificação. Algumas religiões neopagãs comemoram o Equinócio da Primavera como o festival de Ostara, centrado na fertilidade, no florescimento da natureza e no equilíbrio entre luz e escuridão.

Páscoa na contemporaneidade

Nos dias de hoje, a Páscoa adquiriu também dimensões culturais e comerciais, especialmente no Ocidente. Símbolos como o coelho da Páscoa e os ovos de chocolate têm origens variadas – desde rituais de fertilidade pagãos, até tradições medievais cristãs – mas tornaram-se elementos centrais das celebrações modernas. Nas sociedades contemporâneas, a Páscoa representa muitas vezes um momento de pausa, de convívio familiar e de partilha, mesmo entre não crentes. A simbologia do renascimento continua a ressoar profundamente: seja em contextos religiosos, seja como metáfora para o reinício, a transformação e a esperança.

A Páscoa é, antes de tudo, uma celebração da vida em movimento. Quer falemos de libertação da escravidão, da vitória sobre a morte ou da renovação cíclica da natureza, a essência pascal é universal: uma travessia simbólica que nos convida à transformação e ao recomeço. Num mundo em constante mudança, talvez essa seja a mensagem mais duradoura e necessária da Páscoa.

© Maria Antonieta Costa

Imagem – Ovos da Páscoa decorados com palha, foto da exposição de decoração de ovos da Páscoa em Bělkovice-Lašťanech, Chéquia (Wikipédia – Domínio Público).

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