Maria Antonieta Costa

Escritora

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A ALMA QUE PARTIA E A ALMA QUE FICAVA

Lições de vida

Na pequena povoação de San Vallejo, o tempo parecia andar mais devagar. As manhãs eram pintadas com um sol que se erguia preguiçoso, sobre os telhados vermelhos, e as noites eram embaladas pelo murmúrio de um riacho. Foi nesse cenário que duas vidas tão diferentes quanto o dia e a noite se cruzaram.

Ela: Clara, a inflexível. 

Clara era uma força da natureza. Cabelos castanhos sempre presos num coque improvisado, olhos inquietos e mãos que carregavam a marca do trabalho duro. Era dona de uma oficina de restauro de móveis, herdada do pai. Cada peça que saía dali parecia carregar fragmentos de vidas de tempos passados. Clara não acreditava em romance. Acreditava na madeira sólida, no trabalho honesto e nas noites tranquilas na sua pequena casa, lendo um livro, dando pequenos goles numa reconfortante infusão de verbena.

Ele: Miguel, o errante. 

Miguel, por outro lado, era um viajante ávido de aventura. Cidades, empregos e até amores passavam pela sua vida como estações do ano. Tinha o espírito inquieto de quem sempre busca algo, mas nunca sabe o quê. A última paragem trouxera-o a San Vallejo, onde um amigo lhe arranjara trabalho temporário como fotógrafo do jornal local. Miguel via o mundo por trás de lentes, acreditando que as imagens podiam capturar o que as palavras falhavam em explicar.

O Acaso 

O encontro de ambos aconteceu por acaso, ou talvez fosse o destino no seu habitual jogo de xadrez. Clara restaurava uma cadeira de baloiço antiga para um cliente idoso e precisava de alguém que registasse o antes e o depois. Miguel foi indicado pelo dono do jornal.

Quando chegou à oficina, o cheiro de madeira e verniz atingiu-o como uma onda. Clara, mulher decidida, mal olhou para ele antes de lhe apontar a cadeira e dizer:

- É esta. Faça o que tem de fazer e avise-me quando terminar. 

Surpreso com a frieza dela, Miguel apenas sorriu. Segurou a câmara com gestos de especialista e começou a fotografar. Durante o trabalho, os olhos vaguearam-lhe pela oficina, pelas prateleiras abarrotadas de ferramentas, pelas marcas de tinta no avental da artesã, pela forma como ela parecia ser parte daquele lugar.

Tentando puxar assunto, perguntou:

- Gosta mesmo disto, não gosta?

Clara respondeu sem tirar os olhos do trabalho:

- Gosto de coisas que têm propósito.

A Aproximação 

No tempo seguinte, o fotógrafo voltou várias vezes à oficina para capturar o progresso da metamorfose da cadeira. Aos poucos, começou a decifrar as camadas daquela mulher enigmática. Ela era prática e direta, mas havia uma doçura subtil nos movimentos e, especialmente, quando falava sobre o valor de preservar algo que os outros consideravam descartável. 

Por sua vez, Clara começou a perceber que Miguel não era apenas um homem sem raízes. Possuía uma sensibilidade rara, um olhar que enxergava beleza nas pequenas coisas: um feixe de luz atravessando o vidro, uma imperfeição na madeira que podia contar uma história. 

Um dia, quando Clara lixava a cadeira, concentrada, com uma mecha de cabelo solta caindo sobre o rosto, Miguel mostrou-lhe uma foto que tirara sem que percebesse.

- Veja! Parece que estão a conversar. Essa cadeira fala consigo e com mais ninguém! – disse, com um sorriso sincero.

Ela ficou sem palavras. Segurou a fotografia e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se vista. Sentiu que existia para alguém, tal como os móveis caducos que restaurava existiam para ela.

O Conflito 

Contudo, apesar da aproximação, havia algo que os separava. Clara temia que Miguel fosse apenas mais uma presença passageira na sua vida, enquanto o fotógrafo acreditava que nunca poderia oferecer a estabilidade que ela tanto valorizava. 

Um dia, Miguel recebeu uma oferta para fotografar uma série de viagens pelo mundo. Era o que sempre quisera. Quando contou a Clara, a reação foi dura:

- Sabia que seria assim. Tu nunca te fixarás!

- E tu? Vais passar a vida toda presa a esta oficina? — rebateu. 

Um silêncio tumular caiu entre ambos. No dia seguinte, Miguel partiu, deixando-a com o coração mais vazio do que imaginara ser possível.

O Regresso 

Dois meses depois, o fotógrafo encontrava-se numa cidade do litoral quando uma cadeira de balanço, exatamente como aquela que Clara restaurara, lhe captou a atenção. Percebeu, então, que não havia sentido em viajar pelo mundo se não podia compartilhar as suas vivências com alguém que o compreendesse.

De volta a San Vallejo, encontrou Clara na oficina, terminando de restaurar uma mesa. Sem dizer nada, colocou uma foto na bancada: a da cadeira que vira, com a luz vermelha do pôr do sol refletindo no fundo oceânico.

- Estava errado – confessou. – Não quero apenas registar o mundo. Quero criar raízes contigo.

Clara olhou-o, e pela primeira vez, o sorriso dela foi mais do que uma curva nos lábios: era um convite para ficar:

- Não quero ficar prisioneira do meu trabalho. Também quero conhecer o teu mundo.

E assim, duas almas incompatíveis – uma que corria e outra que se deixava ficar – descobriram que o amor não é sobre mudar o outro, mas sobre encontrar um equilíbrio entre dois mundos. 

O verdadeiro amor não prende nem liberta. Cria um espaço onde ambos podem florescer.

Concorda comigo?

Seguimos juntos nesta jornada.

Até à próxima reflexão.

© Maria Antonieta Costa

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