Maria Antonieta Costa

Escritora

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As Emparedadas: Silêncio, Pedra e Santidade

História

Na penumbra das cidades medievais, junto às igrejas ou encostadas às muralhas, viviam mulheres enclausuradas por escolha própria: as emparedadas. Praticamente esquecidas nos manuais de História, estas figuras habitavam celas minúsculas, por vezes seladas com cal e pedra, como expressão extrema de devoção religiosa. Em Portugal, a emparedação foi um fenómeno marginal mas real, revelador da complexidade espiritual, social e simbólica da Idade Média.

Quem eram as emparedadas?

Eram, quase sempre, mulheres leigas que decidiam isolar-se do mundo como forma de penitência ou santificação. O seu silêncio era interpretado como uma oração contínua e o isolamento como uma imitação da morte em vida. Embora raramente mencionadas pelas autoridades religiosas centrais, eram toleradas ou até respeitadas pelas comunidades locais, que viam nelas intercessoras vivas, próximas da santidade.

No Porto, há registos de mulheres (e também homens) que voluntariamente se enclausuravam em celas estreitas (1,5 m × 1 m), com apenas uma fresta em forma de cruz para se confessarem, receberem comunhão e subsistirem com pão e água. 

Arnaldo Gama (1828-1869), no romance A Última Dona de S. Nicolau, menciona Branca Mendes, uma mulher sem filiação religiosa descrita como “a última dona de S. Nicolau”, emparedada num desses recolhimentos até à morte.

Trata-se de uma personagem ficcional, retratada como uma mulher nobre que se empareda movida por tragédias pessoais e um ideal de santidade. A personagem é emblemática do romantismo oitocentista, que frequentemente mistura história com invenção para criar figuras com valor simbólico.

Artur de Magalhães Basto (1894-1960), professor e historiador portuense, indica que as celas faziam parte de instituições como as Cónegas Regrantes de Santo Agostinho, junto à igreja de Nossa Senhora da Silva ou do Mosteiro da Serra do Pilar, de invocação a São Nicolau.

Outros casos, como a emparedada de Évora, são evocadas de forma anónima em testamentos ou registos paroquiais. Esta será uma figura semilendária, provavelmente baseada numa ou mais mulheres em reclusão religiosa na cidade. Estas mulheres viviam próximas da população, mas numa radical separação do quotidiano mundano.

Fontes e vestígios históricos

Os testemunhos sobre emparedadas são escassos, mas não inexistentes. Encontram-se indícios em testamentos, documentos de doações e registos eclesiásticos, especialmente no contexto de práticas devocionais e penitenciais. A obra de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal Antigamente se Usaram, dedica verbetes ao fenómeno, associando-o a um ideal feminino de ascese radical.

Segundo Viterbo, “Desde o Século XII até o XV se achão em Portugal muitas Emparedadas. Erão mulheres varonis, que desenganadas inteiramente do mundo, se sepultavão em vida n'huma estreita cella, cuja porta no mesmo ponto da sua entrada, se fechava com pedra, e cal, e só por morte da Inclusa se abria, para ser levada finalmente á sepultura. No lugar da porta, e ao tempo de a tapar, ficava só huma pequenina fresta por onde se lhes ministrava o indispensavelmente necessário para a vida, que poucas vezes passava de pão, e agua, recebiam o Corpo de Christo, e fallavão ao seu Confessor unicamente no que respeitava á sua consciência. E de se fecharem entre paredes, emparedando-se, se chamarão Emparedadas.

Refere que as havia por todo o reino: Lisboa, Santarém, Coimbra, Lamego, Porto, Viseu e Guarda. As que tinham posses deixavam aos Cabidos das Sés os bens em testamento, entres estas Margarida Afonso, que faleceu em 1419 legando ao cabido de Lamego um cálice de prata dourada e uma bacia no mesmo metal precioso, com a obrigação de um Responso diário.

Muitos casos alternavam entre voluntariado absoluto – motivado por devoção – e casos de isolamento resultante de pressões familiares, desequilíbrios mentais, ou “expiações” de comportamentos considerados pecaminosos. A clausura era interpretada tanto como atitude de ascetismo religioso extremo, quanto como punição social ou medida de honra familiar. Viviam como se estivessem mortas em vida, em celas quase como “túmulos”, num contexto de clausura total. Recebiam o mínimo vital (pão e água) e eram mantidas por doações e atos de caridade, em troca de rezas pela comunidade. 

Uma prática transnacional, com diferenças marcadas

Embora a documentação portuguesa seja limitada, o fenómeno ganha relevo quando comparado com outras realidades europeias. Em Espanha, especialmente na zona de Castela, também existiam emparedadas – algumas reconhecidas oficialmente pela Igreja e inseridas em estatutos diocesanos. Em Itália, surgem as recluse, muitas vezes associadas às beguinas ou às terciárias franciscanas, com celas construídas segundo normas próprias. Em Inglaterra, as anchorites (como Julian of Norwich) eram enclausuradas com cerimónias solenes e passavam a integrar a estrutura religiosa local. Tinham, inclusive, guias espirituais escritos, como a Ancrene Wisse.

Portugal, por contraste, revela um fenómeno mais espontâneo e localizado, frequentemente não institucionalizado, o que ajuda a explicar a escassez de registos e a aura de marginalidade associada à prática.

Arquitetura do silêncio: como eram as celas

As celas das emparedadas eram pequenas construções em pedra e madeira, com apenas uma ou duas aberturas. Uma janela dava acesso à rua, por onde entravam alimentos e mensagens; outra, por vezes, comunicava com o interior da igreja, permitindo assistir à missa. O espaço interior era reduzido ao essencial: uma enxerga, um banco, uma imagem sagrada, talvez uma pequena mesa. Em alguns casos, a cela era literalmente murada após a entrada da emparedada, num gesto simbólico de “sepultamento vivo”.

Os relatos sugerem que estas celas podiam ter 1 a 2 metros quadrados, com espaço apenas para dormir, rezar e subsistir. Celas encontradas em escavações (como junto à Sé de Braga) indicam o uso de pedra e madeira, com reboco grosso, e inscrições religiosas no interior.

Estes espaços tornavam-se lugares de culto informal. O povo procurava as emparedadas para pedir conselhos ou bênçãos, transformando o isolamento num curioso ponto de contacto espiritual entre o terreno e o divino.

O fim da tradição

A partir do século XVI a XVII, o número de emparedadas começou a decrescer, graças a mudanças institucionais, sensibilidades religiosas e evoluções sociais, acabando por desaparecer nas eras seguintes.

Conclusão

As emparedadas portuguesas representam uma dimensão esquecida da religiosidade medieval. Sem pertencerem a ordens monásticas, sem votos solenes, mas com um compromisso total com o isolamento e a oração, estas mulheres desafiaram normas e marcaram o imaginário popular. No silêncio das suas celas, construíram um espaço paradoxal: fechado ao mundo, mas aberto à eternidade.

Imagem – A monja emparedada, gravura de 1868 de Vinzenz Katzler (Wikipedia - Domínio Público).

© Maria Antonieta Costa, junho, 2025

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