Uma figura inesquecível da infância de muitos
O Catitinha era António Joaquim Ferreira (23 de outubro de 1880 – 9 de abril de 1969), nascido em Torres Novas e falecido em Avanca. Tornou-se uma figura pitoresca e emblemática das praias portuguesas entre as décadas de 1930 e 1960. O homem do apito, das histórias e dos rebuçados.
Percorria a costa, entre Moledo do Minho e Cascais, com um apito que usava para chamar as crianças nas praias e parar os carros para atravessarem. Ao juntá-las à sua volta, contava histórias fascinantes (especialmente sobre os perigos do mar) e distribuía doces ou apertos de mão, atento a cada criança que sorria e se aproximava.
A morte de uma filha. Lenda ou vida real?
Relatos consolidam que a filha de Catitinha morreu jovem, vítima de atropelamento ou tragédia marítima. Fora jurista e assistira à morte da única filha. Este luto levou-o a abdicar da vida convencional e fez dele um errante dedicado a proteger outras crianças, alertando-as, e aos pais, contra os riscos do mar. O acolhimento que recebeu transformou-o num “avô de todas as praias”, obtendo guarida nas casas de moradores locais, onde dormia, comia e narrava lições de vida.
Um avô de todos
Catitinha era visto como uma instituição informal: um “avô de todos” a quem ninguém pagava nem convidava, mas todos acolhiam. Vivia da bondade do povo e retornava a cada verão, viajando pelas ondas da memória popular de norte a sul de Portugal. A afeição era espontânea: as crianças corriam para ele com confiança, sem temor.
Quem o conhecia lembra-se assim...
Pessoas que o conheceram lembram-no vestido de preto ou de linho, longas barbas brancas e um chapéu, com um apito pendurado e rodeado de miúdos, um ser misterioso com olhos bondosos, transmitindo uma presença a meio caminho entre o ternurento e o solene.
A literatura e os testemunhos que perpetuam a memória
Alice Vieira recordou-o numa crónica como alguém que a levava ao Parque Eduardo VII e lhe ensinava a conhecer plantas silvestres, uma presença amorosa e didática que lhe marcou a infância.
Virgílio Ferreira lembra-o em Nítido Nulo como um “deus bíblico” com “cabelos de profecia” e o tal apito que fazia soar “como o apito das fábricas ou do comboio”. Cumprimentava cada criança com um aperto de mão caloroso.
Manuela Costa Ribeiro publicou o livro infantil O Catitinha, ilustrado por Evelina Oliveira, emergindo da memória oral da Póvoa de Varzim, Cascais, Espinho, Leça, Caminha, Nazaré e muitos outros locais onde atuou.
A diretora Catarina Mourão produziu o documentário ficcional O Mar Enrola na Areia (2019), inspirado na memória afetiva do Catitinha. Utilizando apenas quatro segundos de filmagens de arquivo de família, construiu uma narrativa cinematográfica em torno dessa figura misteriosa.
Em diversas localidades (Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Cascais, Nazaré, Espinho ou Santa Cruz), o Catitinha é lembrado como um símbolo de solidariedade, altruísmo e prevenção. Em Torres Vedras, escreveu-se a homenagem: “o melhor agradecimento era, para ele, o sorriso dos nossos olhos de criança”.
Um resgate de memória
Vi-o pela última vez no início dos anos 1960, em Vila Nova de Famalicão, numa manhã de quarta-feira, o dia da farta feira semanal: uma figura errante, cabeluda, com casaco escuro, chapelaria modesta, usando um evocador pau de arrimo, talvez o apoio de longas caminhadas pelas areias e pelas estradas. E lembro-me dos rebuçados... para quem sorria e o rodeava.
Legado e homenagem
O Catitinha permanece como um símbolo de altruísmo, sabedoria informal e infância partilhada. Era uma personagem carregada de poesia: o homem que andava sem destino, mas com uma clara missão moral e emocional. A sua imagem merece perdurar num museu da infância, num retrato gravado nas memórias de quem ainda o viu... num blog.
O Catitinha foi mais do que um simples personagem: foi um guardião da infância. Quem o conheceu, criança ou adulto, guarda dele um rasto luminoso: o do barulho do apito ao som de dezenas de crianças encantadas. Que essa memória permaneça viva por muitos anos, repassada às novas gerações.
© Maria Antonieta Costa, agosto, 2025
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