Todos os verões, Portugal arde. Literalmente. Todos os anos (uns mais do que outros), Portugal vê milhares de hectares consumidos pelo fogo, vidas viradas do avesso, aldeias em sobressalto e o país inteiro a assistir já sem surpresa, quase sem indignação. As imagens de florestas a arder tornaram-se rotina. A tragédia virou cenário habitual de noticiários, com helicópteros em fundo e lágrimas em primeiro plano. E pior: tornou-se normal. Já ninguém sente como antes. Já não choca. Banalizou-se.
O problema está identificado há anos. Não é mistério: a esmagadora maioria dos incêndios tem origem humana, sendo fogo posto, intencional, repetido. Mas o discurso dominante continua a escorregar por entre estatísticas, vento, calor e condições propícias. Os comentadores tecem as mesmas teorias gastas. Falam como se não soubessem. Como se fosse bruxedo. E andam assim, há décadas, a fingir que não sabem o que todos sabemos.
No início deste agosto de 2025, o país real arde como se não houvesse amanhã! Arde, arde... E arde outra vez. E continuará a arder enquanto não se tiver coragem de enfrentar os interesses, de criminalizar a sério os culpados, de proteger a floresta e quem nela vive.
Quando as chamas se apagarem, ficará apenas a sensação de impotência. Nada muda. Para o ano repetimos o mesmo filme devastador. E, no fim, não há culpados, nem soluções eficazes.
A realidade crua
90 % dos incêndios têm causas humanas, entre negligência e intenções deliberadas. As ignições, no interior das florestas e matas, em locais recônditos, iniciam-se de forma criminosa pela madrugada, quando todos dormem para que o incendiário passe incólume.
Entretanto, há quem ganhe. A matéria ardida dá lucro. O combate ao fogo movimenta milhões. Selváticos interesses – madeireiros, imobiliários e até operações ilegais – continuam impunes. As televisões também lucram: promovem horas e horas de tragédia, dias a fio a transmitir labaredas e gentes incompreensivelmente conformadas, tornando-nos espectadores alienados. O circo mediático assegura audiências com a desgraça alheia.
É chegado o tempo de agir e não de assistir
Queremos fiscalização eficaz, com investigação rigorosa, transparente e responsabilização dos culpados. Queremos gestão ativa da floresta: limpeza contínua, remoção de combustíveis, monitorização das queimas agrícolas. Queremos fogo controlado e regulamentado, sob supervisão técnica, para evitar práticas perigosas. Queremos proibição e vigilância rigorosa da queima de resíduos ou pastagens sem autorização. Queremos campanhas públicas constantes, com base em dados reais, sem mais sensacionalismo. E o mais importante, já que as ignições são criminosas: queremos penas adequadas para quem, com um fósforo ou com um isqueiro destrói o esforço de uma vida e a própria vida de alguns. Dizemos não a uma justiça permissiva que acredita que estas ações são delírios mentais de autores inimputáveis.
Portugal não pode continuar a pagar o mesmo tributo: ignição por negligência ou crime, desflorestação por inação, desastre por omissão. Não é sentimentalismo, é urgência. Que este manifesto seja um grito coletivo: basta de tragédia repetida, basta de impunidade. É tempo de virar a página, com ação e verdade.
Nunca foi suficiente dizer que é triste. Que é revoltante.
© Maria Antonieta Costa, agosto 2025
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