Maria Antonieta Costa

Escritora

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Manifesto contra o fogo que consome Portugal

Histórias reais

Todos os verões, Portugal arde. Literalmente. Todos os anos (uns mais do que outros), Portugal vê milhares de hectares consumidos pelo fogo, vidas viradas do avesso, aldeias em sobressalto e o país inteiro a assistir já sem surpresa, quase sem indignação. As imagens de florestas a arder tornaram-se rotina. A tragédia virou cenário habitual de noticiários, com helicópteros em fundo e lágrimas em primeiro plano. E pior: tornou-se normal. Já ninguém sente como antes. Já não choca. Banalizou-se.

O problema está identificado há anos. Não é mistério: a esmagadora maioria dos incêndios tem origem humana, sendo fogo posto, intencional, repetido. Mas o discurso dominante continua a escorregar por entre estatísticas, vento, calor e condições propícias. Os comentadores tecem as mesmas teorias gastas. Falam como se não soubessem. Como se fosse bruxedo. E andam assim, há décadas, a fingir que não sabem o que todos sabemos.

No início deste agosto de 2025, o país real arde como se não houvesse amanhã! Arde, arde... E arde outra vez. E continuará a arder enquanto não se tiver coragem de enfrentar os interesses, de criminalizar a sério os culpados, de proteger a floresta e quem nela vive.

Quando as chamas se apagarem, ficará apenas a sensação de impotência. Nada muda. Para o ano repetimos o mesmo filme devastador. E, no fim, não há culpados, nem soluções eficazes.

A realidade crua

90 % dos incêndios têm causas humanas, entre negligência e intenções deliberadas. As ignições, no interior das florestas e matas, em locais recônditos, iniciam-se de forma criminosa pela madrugada, quando todos dormem para que o incendiário passe incólume.

Entretanto, há quem ganhe. A matéria ardida dá lucro. O combate ao fogo movimenta milhões. Selváticos interesses – madeireiros, imobiliários e até operações ilegais – continuam impunes. As televisões também lucram: promovem horas e horas de tragédia, dias a fio a transmitir labaredas e gentes incompreensivelmente conformadas, tornando-nos espectadores alienados. O circo mediático assegura audiências com a desgraça alheia.

É chegado o tempo de agir e não de assistir

Queremos fiscalização eficaz, com investigação rigorosa, transparente e responsabilização dos culpados. Queremos gestão ativa da floresta: limpeza contínua, remoção de combustíveis, monitorização das queimas agrícolas. Queremos fogo controlado e regulamentado, sob supervisão técnica, para evitar práticas perigosas. Queremos proibição e vigilância rigorosa da queima de resíduos ou pastagens sem autorização. Queremos campanhas públicas constantes, com base em dados reais, sem mais sensacionalismo. E o mais importante, já que as ignições são criminosas: queremos penas adequadas para quem, com um fósforo ou com um isqueiro destrói o esforço de uma vida e a própria vida de alguns. Dizemos não a uma justiça permissiva que acredita que estas ações são delírios mentais de autores inimputáveis. 

Portugal não pode continuar a pagar o mesmo tributo: ignição por negligência ou crime, desflorestação por inação, desastre por omissão. Não é sentimentalismo, é urgência. Que este manifesto seja um grito coletivo: basta de tragédia repetida, basta de impunidade. É tempo de virar a página, com ação e verdade.

Nunca foi suficiente dizer que é triste. Que é revoltante.

© Maria Antonieta Costa, agosto 2025

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