Maria Antonieta Costa

Escritora

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Memórias de... Cevide - aqui também nasceu Portugal

Experiências pessoais

Há lugares que nos tocam pela paisagem, outros pela história, e alguns, raros, pelos dois. Cevide, a pequena aldeia encravada entre o Minho e os montes do Gerês, é um desses lugares.

Fui até lá com a intenção singela de percorrer o trilho do rio Trancoso (Troncoso, em espanhol), esse curso de água rebelde (outrora bem mais límpido do que atualmente) que nasce nas serranias e corre célere até se entregar, humilde e vigoroso, ao Rio Minho, mesmo ali onde Portugal beija a Galiza. Mas o que encontrei foi bem mais do que um trilho natural: encontrei um pedaço profundo e quase esquecido da alma portuguesa.

O ponto mais setentrional de Portugal

Cevide tem um privilégio geográfico único: é o ponto mais a norte de Portugal continental. O marco fronteiriço número um, um pequeno bloco de pedra que resiste ao tempo e ao descuido, assinala esse início simbólico da nossa terra. É ali, entre carvalhos e silêncios, que Portugal começa. E é comovente pensar que, de todos os lugares possíveis, o país tem o seu nascimento fronteiriço numa aldeia que tantos nunca ouviram nomear. Eu, inclusive.

Esse marco, ainda hoje visível e visitável, é mais do que um limite geográfico: é um símbolo de soberania, de pertença, de identidade nacional. Nele, e na sua modesta mas poderosa presença, repousa a memória de séculos de história fronteiriça — marcada por alianças, conflitos, comércio... e contrabando.

A terra do contrabando

Esta atividade ilegal terá tido o seu primeiro impulso entre 1880-1920. O período de maior intensidade desenrolou-se de 1920 a 1950, sendo a época de 1960-1974 de emigração clandestina, nomeadamente para França e Alemanha, e de fuga de mancebos ao serviço militar, a fim de se furtarem à Guerra Colonial.

Durante décadas, Cevide e as povoações vizinhas foram palco de intenso contrabando com a Galiza. Num tempo em que as fronteiras eram mais permeáveis ao engenho popular do que aos carimbos dos estados, homens e mulheres arriscavam-se nas veredas escondidas e pelos caminhos do rio Trancoso, trocando mercadorias com os vizinhos galegos – café, tecidos, tabaco, azeite, gado, utensílios – um comércio paralelo que, para alguns, era a diferença entre o pão e a fome.

Muitos contrabandistas acumularam o papel de “passadores” – cobravam para guiar fugitivos da tropa ou emigrantes ilegais por trilhos, montes e vãos. O contrabando era um pacto tácito entre comunidades divididas por linhas políticas mas unidas por laços de sangue, língua e necessidade. E era, sobretudo, um retrato vivo da coragem e do engenho do povo das fronteiras.

Património esquecido, identidade em risco

Em Cevide ainda existem – ou melhor, resistem – vestígios dessa época passada: edifícios administrativos e de controlo fronteiriço, armazéns, postos da Guarda Fiscal, instalações que testemunharam tempos de vigilância, de clandestinidade, de resistência e de vida dura. Hoje, porém, esses edifícios estão abandonados, entregues à ruína, ao mato e ao esquecimento.

É doloroso ver património histórico de tão grande valor cair no abandono. Estruturas que poderiam acolher museus locais, centros interpretativos, espaços de memória, alojamento local... mas que em vez disso se desmoronam em silêncio, como se fossem incómodos ecos de um passado que já não interessa preservar.

Mário Monteiro — o guardião da memória

Felizmente, há quem resista ao esquecimento. Um desses nomes que importa lembrar é o de Mário Monteiro, filho da terra, homem apaixonado pela sua aldeia e incansável defensor da memória de Cevide. Graças a ele, Cevide voltou a surgir nos mapas, nas redes, nos corações. Com persistência, amor e dedicação, tem promovido trilhos, histórias, imagens e informações sobre este canto esquecido de Portugal.

O trabalho de Mário Monteiro vai muito além da divulgação, pois que é um verdadeiro ato de serviço público e amor à pátria. Sem holofotes mediáticos, mas com uma convicção inabalável, tem mostrado ao país (e ao mundo) que Cevide não é apenas um ponto geográfico — é um marco da nossa identidade coletiva.

Cevide, espelho da pátria

Portugal é dos países mais antigos da Europa, com fronteiras estáveis desde o século XIII. Poucos povos podem orgulhar-se de tal continuidade. Mas o orgulho não se mede em palavras: mede-se em respeito pela memória, em cuidado com o que herdámos. Ao contrário da fronteira sul, em expansão durante a Reconquista, a fronteira norte estabilizou-se muito cedo, e desde o século XIII praticamente não se alterou. Foi com o Tratado de Alcanizes (1297), celebrado entre Dom Dinis e Fernando IV de Leão e Castela (primos direitos ou primos-irmãos, como se dizia na altura), que a zona de Melgaço, Monção e Cevide foi oficial e definitivamente reconhecida como parte integrante de Portugal. A linha do rio Minho, que hoje separa Portugal da Galiza, ficou praticamente como a conhecemos hoje.

Em Cevide ergue-se, humilde, a pedra que marca onde começa Portugal no Norte, pelo que a aldeia deveria ser um símbolo nacional, um lugar de peregrinação cívica e histórica. E, no entanto, não há monumento digno, nem centro interpretativo, nem sequer uma placa condigna que explique ao visitante o que ali vê.

É lamentável e profundamente triste que em Portugal continuemos a tratar com tão pouco apreço o nosso património arquitetónico e histórico. São incontáveis os exemplos de edifícios de valor que se perdem, seja por abandono, por ignorância, ou por desinteresse político. Cevide é apenas mais um nome nessa longa lista, mas é um nome que dói porque simboliza o nascimento da nossa pátria a Norte. Os sucessivos governos têm falhado, de forma reiterada, no cuidado deste legado. Preservar Cevide e os seus vestígios fronteiriços seria um ato de respeito, de memória e de justiça. Não se trata de saudosismo, mas de identidade. De sabermos quem somos e de onde viemos. Porque Cevide é a fronteira portuguesa mais a Norte. Porque ali também nasce Portugal.

©Maria Antonieta Costa, julho 2025

Fotos da autora – Marco geográfico fronteiriço nº 1, localizado em Cevide, junto ao rio Trancoso; estátua do contrabandista (autora Madalena Lima, localizada no largo da aldeia, no início do Caminho da Caneija do Contrabando).

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