Maria Antonieta Costa

Escritora

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O amor é estúpido?

Reflexão

Talvez seja. Ou talvez seja a coisa mais inteligente que um ser humano pode experimentar. Mas antes de correr para defender o amor com flores e violinos, vale a pena parar e refletir. 

Não estamos a falar da definição romântica enlatada pela Disney, nem da versão capitalizada do Dia dos Namorados com peluches em forma de coração. Estamos a falar daquela coisa crua, imprevisível, quase biológica e ao mesmo tempo metafísica que move guerras, transforma poetas em loucos e executivos em adolescentes. Aquela força que nos faz ignorar alertas vermelhos, sinais de perigo e a opinião sensata dos amigos.

A estupidez inteligente

O amor faz-nos agir contra a lógica. Ligamos quando não devíamos. Voltamos quando jurámos que nunca mais. Abrimos a porta sabendo que do outro lado está a dor, mas também a esperança. Rimos por mensagens idiotas, choramos por palavras mal interpretadas. Damos o melhor de nós sem garantia de retorno. Isso é racional? Não. Isso é estúpido? Talvez. Mas há algo de profundamente humano nessa estupidez.

O amor, visto de fora, é um teatro do absurdo. Pessoas que antes eram independentes agora esperam mensagens como quem espera oxigénio. Reduzimo-nos a metáforas, exageros, gestos infantis. E depois, quando tudo corre mal – porque muitas vezes corre – juramos que foi a última vez. Até à próxima.

O algoritmo não entende

Numa era de inteligência artificial, eficiência e produtividade, o amor é o bug de sistema que persiste. Os algoritmos podem prever padrões de consumo, mas não conseguem compreender porque é que alguém atravessa um continente por um beijo. Ou porque é que alguém perdoa. Ou espera. Ou continua.

Nesse sentido, o amor é estupidamente livre. Não se dobra à razão nem às estatísticas. É o vírus que escapa ao controlo, o incêndio que ignora os planos de contenção. E talvez seja isso que o torna tão necessário e tão assustador.

Estúpido como a arte, como a fé, como a vida

Chamamos de “estúpido” tudo aquilo que desafia a utilidade. A arte não serve para nada e, no entanto, transforma. A fé não tem prova, mas sustenta. O amor, esse amor sem garantias, é da mesma linhagem: inútil à lógica, mas essencial à existência.

Talvez o amor seja estúpido da mesma forma que é estúpido olhar para as estrelas e formular desejos. Ou dançar sozinho na sala, de madrugada, porque se sente saudade. Essa estupidez é uma forma de coragem. Uma recusa silenciosa a ser apenas máquina.

E se for mesmo estúpido?

Se o amor for estúpido (e pode muito bem ser), então que sejamos todos um pouco estúpidos também. Porque nessa irracionalidade há uma verdade que a razão não alcança. Há uma entrega que a lógica jamais compreenderá. E há uma beleza que só quem ama, mesmo sem explicação, consegue sentir.

E, no fim, talvez o mundo precise menos de certezas e mais de amores estúpidos, mas profundamente vivos.

© Maria Antonieta Costa, julho, 2025.

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