Maria Antonieta Costa

Escritora

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SABE ONDE E QUANDO NASCEU AFONSO HENRIQUES?

História

Toda a gente sabe quem foi Afonso Henriques. E se não sabe, deveria saber. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal durante quarenta e dois anos, desde 1143 até à morte. Foi denominado de ‘o Conquistador’ pela vasta obra de expulsão dos muçulmanos e de domínio de um território que ia do condado à linha do rio Tejo. Morreu em 6 de dezembro de 1185, deixando ampla descendência. Ao todo, sete filhos legítimos do seu matrimónio com Mafalda de Sabóia, mais quatro bastardos. Seis mulheres e cinco homens.

Foi seu pai Henrique de Borgonha, nascido em Dijon em 1066 e falecido em Astorga em 1112. Conhecemo-lo como conde Dom Henrique, pois foi conde de Portucale desde 1096, por casamento com Teresa de Leão. Era o descendente mais novo da família ducal da Borgonha, facto que o trouxe à Península Ibérica, integrado numa Cruzada, a fim de alcançar fortuna e títulos.

Dona Teresa era filha bastarda de Afonso VI de Leão, um dos promotores da Reconquista Cristã da Hispânia. Como recompensa pelos serviços prestados, Henrique recebeu-a em casamento mais as terras do Condado Portucalense. Deste casal nasceram seis descendentes legítimos, três de cada sexo. Apesar de ser o penúltimo, Afonso Henriques acabou por se posicionar como o primeiro na linha de sucessão, já que as três primeiras eram mulheres e o quarto, Henrique como o pai, faleceu em criança.

Questionam-se a data e o local de nascimento do nosso primeiro rei. A esse propósito seguiremos um único estudo, o de Abel Estefânio, o qual resumiremos ao essencial.

Consideremos a data. Como as fontes diplomáticas (registos régios oficiais) não informam sobre o acontecimento, os estudiosos lançaram mão às literárias e narrativas produzidas na época. Desse modo, a Vita Beatissimi Domni Theotonii primi prioris monasterii sanctae crucis colimbriensis, um manuscrito proveniente do Mosteiro de Santa Cruz e datado da segunda metade do século XII, indica que o rei tinha cinquenta e seis anos aquando da morte de São Teotónio, em 18 de fevereiro de 1162, resultando daqui que Afonso Henriques teria nascido cerca de 1106. Os seguintes três documentos são concordantes: Translatio et Miracula Sancti Vincentii, Indiculum Fundationis Monasterii Beati Vincentii Vlixbone e o Martirológio da Sé de Lisboa. Mas existem fontes discordantes: De expugnatione Scallabis, os Annales Domni Alfonsi Portugalensius Regis’, os Anais Lamecenses e o Livro de Noa I.

Contudo, há um dado que precisa ser equacionado: São Teotónio faleceu numa sexta-feira e 18 de fevereiro de 1162 ocorreu a um domingo. Acrescente-se que o ano em que morreu não é apresentado de modo explícito, o que levou a que se fixasse a data da morte do nosso primeiro santo em 1166, quando o dia 18 de fevereiro caiu a uma sexta-feira. Daqui o desfasamento de quatro anos para a data de nascimento de Afonso I, ficando assim em 1110.

Acontece que os Annales Domni Alfonsi Portugalensius Regis registam que o jovem infante Afonso foi armado cavaleiro com catorze anos, a 17 de maio de 1125, o que transporta o seu nascimento para 1110/1111. Ora, se considerarmos como certo o ano de 1106 (referido na Vita Theotonii), será necessário corrigir a data da investidura como cavaleiro para 1120.

Façamos três parêntesis para considerar outras fontes. O primeiro vai para a datação proposta por Alexandre Herculano. Certamente terá conjugado a informação dos Annales Domni Alfonsi Portugalensius Regis referente à batalha de São Mamede, na qual se diz que, quando o pai morreu, Dom Afonso contaria cerca de dois a três anos de idade. E como o decesso do conde Dom Henrique se verificou a 24 de abril de 1112, então o filho Afonso poderia ter nascido em 1109. O segundo, para a inscrição mandada fazer no ano de 1664 pelo prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, Dom Diogo Lobo da Silveira, na pia batismal da Igreja de São Miguel do Castelo, em Guimarães, onde, supostamente, Afonso Henriques terá sido batizado em 1106. O terceiro, para outra inscrição: a do túmulo de Afonso Henriques, existente na igreja de Santa Cruz de Coimbra, que coloca o nascimento em 1110.

Em conclusão, para o ano de nascimento do nosso primeiro monarca ficamos com estas datas: 1106, 1109 e 1110/1111. João de Barros, Luís Gonzaga de Azevedo e Alfredo Pimenta aceitaram a primeira. 1109 mereceu a preferência de Torquato de Sousa Soares, Lindley Cintra e Almeida Fernandes. O historiador americano Bernard F. Reilly, considerou provável o nascimento em 1109 ou 1110, estando este último ano refletido no Livro de Linhagens do Conde Dom Pedro e na Monarquia Lusitana, de Frei António Brandão.

Abordemos agora a questão do local de nascimento que se apresenta bastante mais complexa. Uma vez que os condes portucalenses tiveram residência habitual em Guimarães, Viseu e Coimbra, estas são as localidades consideradas. No entanto, Bernard Reilly demonstrou que os condes residiram também na corte do reino de Leão e Castela ao longo de quase toda a primeira década do século XII.

A partir de 1104 Dom Henrique e Dona Teresa permaneceram ausentes do Condado Portucalense. De acordo com a documentação do mosteiro de Sahagún, os condes terão residido por períodos muito longos no reino de Leão. O primeiro documento que confirma Dona Urraca como rainha, faz doações e concede privilégios à Sé de Leão, sendo datado de 22 de julho de 1109, um dia depois do funeral do pai, Afonso VI, realizado em Sahagún. Os primeiros diplomas que registam a presença dos condes em Viseu e em Coimbra datam de uma semana depois: 29 de Julho de 1109. De Viseu poderão ter partido para Coimbra, para a realização de uma segunda cerimónia na Sé.

Desde a doação do mosteiro de Lorvão à Sé de Coimbra, em 1109, até à morte de Dom Henrique, em 24 de abril de 1112, os condes assinaram um número significativo de documentos para doações em território português. No entanto, a produção documental sugere que entre 1110 e 1111 podem ter-se ausentado do condado.

Em conclusão, de acordo com as presenças registadas nos documentos e as respetivas localidades onde foram lavrados, caso se aceite que Afonso Henriques tenha nascido depois de julho de 1109, seria possível que tivesse sido em Coimbra, mas também também em Guimarães ou Viseu.

E se aceitarmos a data de nascimento de Afonso I em 1106? Neste caso, a documentação do Mosteiro de Sahagún confirma a presença continuada dos condes na corte do reino de Leão e Castela. Neste contexto, Sahagún surge como o ponto geográfico de onde o conde Dom Henrique partia, com ou sem a esposa, para a realização de atos régios entre 1103 e 1109. Portanto, há grande possibilidade de os condes se encontrarem permanentemente fora do Condado Portucalense neste período de tempo, já que as duas referências existentes à presença explícita de Dona Teresa em Guimarães se reportam à época em que era viúva. A referência na Crónica de 1419 de que Afonso Henriques foi entregue, com três anos, a Egas Moniz, em Guimarães, ainda que contenha algum fundo de verdade histórica, não permite afirmar que tenha nascido nessa cidade.

Portanto, como possíveis locais de nascimento concluímos que: a tradição refere Guimarães; Torquato de Sousa Tavares propôs Coimbra; Almeida Fernandes indica Viseu; Abel Estefânio considera o reino de Leão e Castela, ou talvez mesmo em Sahagún. Isto, porque a terra onde Afonso Henriques nasceu está diretamente relacionado com a itinerância da corte condal.

Na verdade, seja qual for o dia, o ano e o local onde nasceu o nosso Primeiro Rei, a sua importância histórica permanece a mesma.

© Maria Antonieta Costa, agosto, 2022

Imagens - D. Afonso Henriques, em iluminura do século XVI (1530-1534), em Genealogia dos Reis de Portugal (Wikipedia - Domínio Público). Mapa síntese do itinerário do conde Dom Henrique e da condessa Dona Teresa entre julho de 1103 e julho de 1109 (extraído de De novo a data e o local de nascimento de Afonso I, de Abel Estefânio).

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