Ainda não apareceu nenhuma militante a berrar que dar nomes femininos às tempestades é uma conspiração patriarcal para associar mulheres à destruição e à violência?!
Cláudia, Ingrid, Kristin… as últimas mais destrutivas e demolidoras, todas com nomes de mulher, o que, segundo a lógica de algumas cabeças fervilhantes, não surge por acaso e poderá ser um plano maquiavélico do mundo meteorológico para difamar metade da humanidade. Imaginem só: ventos de 170 km/h, chuvas torrenciais, árvores arrancadas, casas inundadas, zonas sem água, luz e comunicação difícil e tudo isso enquanto um nome feminino ecoa nas rádios e nos jornais.
"Vem aí uma senhora tempestade: prepare-se para quatro fatores de risco." - escreveu-se no Expresso. Que audácia! Que ataque direto à dignidade feminina! Por que não chamar a cada furacão “João”, “Miguel” ou “Pedro”? Ah, claro, aí não haveria polémica, porque o sofrimento masculino é sempre mais tolerável, aparentemente.
Seria fascinante observar como a imaginação fértil de certas militantes conseguiria transformar mapas meteorológicos em tribunais de julgamento moral. Admira-me como, nos tempos que correm, cada depressão com nome de mulher ainda não passou a ser um símbolo de violência histórica, opressão secular e misoginia atmosférica. Alguém devia avisar as tempestades de que, se forem femininas, precisam de pedir licença às feministas antes de derrubar telhados.
No fim, a verdadeira lição é simples: se um dia um furacão se chamar “Fernando” e arrasar cidades, não haverá indignação, nem manifestações, nem hashtags. Mas se for a “Juliana”… cuidado, que a culpa é dela e só dela. E, claro, a sociedade patriarcal está a rir-se, porque mais uma vez conseguiu associar mulheres a destruição. Ou talvez (e esta é uma hipótese radical) o mundo simplesmente não se importa com o nome da tempestade, mas só com o estrago que ela faz.
Ah, a lógica irrefutável de algumas correntes feministas modernas: se a água molha, a culpa é de Eva; se o vento derruba, a culpa é da Cláudia. Até a meteorologia se pode tornar terreno de militância.
No fim, resta-nos admitir: e se até for o caso? Pode ser que assim seja, que as cúpulas dos serviços de meteorologia tenham, secretamente, decidido associar nomes femininos à destruição atmosférica, como uma conspiração meteorológica contra as mulheres. Talvez este seja um dos poucos assuntos em que, de facto, algumas destas militantes possam ter razão. Mas, até prova em contrário, o mais provável continua a ser que Cláudia, Ingrid e Kristin apenas se levantaram com ventos fortes e chuvas intensas, sem qualquer agenda ideológica. E ainda bem, porque senão teríamos de começar a exigir desculpas às nuvens.
© Maria Antonieta Costa, janeiro, 2026
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